Famílias sem-terra desocupam área
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sexta-feira, 25 de abril de 1997
Marcos Zanatta Sucursal de Maringá 
Marcos NegriniÀ espera da vistoriaFamílias desmontam as barracas e retiram os pertences durante a madrugada; caminhão leva mudanças para a beira da estrada de acesso à propriedade, onde vão aguardar a vistoria do Incra CRUZEIRO DO SUL - As 80 famílias de sem-terra que ocupavam desde 19 de abril a Fazenda Doralúcia, em Cruzeiro do Sul, (64 quilômetros ao norte de Maringá), começaram ontem a deixar a propriedade depois de uma noite tensa.
A retirada foi negociada a partir da tarde de anteontem, quando um dos proprietários da fazenda, João de Oliveira Franco, de Curitiba, chegou na cidade com homens armados, com a intenção de desocupar a área.
Segundo informações do delegado Cláudio Marques da Silva, de Paranacity, cerca de 120 homens fortemente armados contratados pelos donos da fazenda se posicionaram em torno da sede no final da tarde de anteontem. A Polícia Civil de Cruzeiro do Sul acionou outras delegacias da região e a Polícia Militar.
No início da noite, o comando da PM ordenou a retirada dos policiais de dentro da fazenda. Apenas 20 policiais civis, de cinco municípios da região, ficaram em torno da sede.
A proposta de Franco era que todos os sem-terra deixassem a área para a entrada dos homens contratados para fazer a segurança da propriedade.
Os advogados e os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Cruzeiro do Sul não aceitaram a proposta. Ao anoitecer o clima ficou tenso, com a polícia posicionando cerca de 10 viaturas em torno da sede, onde foram alojadas as mulheres e crianças do acampamento.
Alerta O delegado Marques a todo momento alertava os líderes e advogados do MST para o risco de um confronto. Não temos como controlar mais de 100 homens armados com 20 policiais, repetia para os sem-terra, que não queriam deixar a área.
Por volta das 21 horas, representantes do proprietário, dos sem-terra e das polícias Civil e Militar se reuniram com a juíza Márcia Andrade Gomes Bosso, de Cruzeiro do Sul.
Ela tentou intermediar uma saída para o impasse entre os sem-terra e o dono da fazenda, que queria pelo menos a sede desocupada.
Abrigo A liderança do MST alegava que a sede estava servindo de abrigo para as mulheres e crianças e que só sairia da área com a garantia que os homens contratados pelo dono da fazenda não entrassem na propriedade. Não posso atender esse pedido porque ele ainda é o dono da fazenda, disse a juíza Márcia.
Depois de quase duas horas de negociação, o acordo era que os sem-terra deixassem a propriedade a partir da manhã de ontem. Mesmo assim durante a noite o clima foi tenso.
Apenas os policiais ficaram fora da sede, e de madrugada chegaram a disparar tiros para cima, depois de tentarem apagar o fogo em três barracas e terem ouvido disparos vindos da mata. Ninguém ficou ferido.
Segundo a liderança do MST, a retirada dos sem-terra começou a por volta das 9 horas. No início da tarde, o advogado do MST na região, Marino Gonçalves, informou que a fazenda já estava desocupada.
Os sem-terra, segundo Marino, voltaram para a beira da estrada de acesso à propriedade, onde pretendem aguardar o resultado da vistoria do Incra.


