Famílias se preparam para ocupar novas terras
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de janeiro de 1997
Paulo Pegoraro 
Sucursal de Cascavel
Edson MazzettoVistoriaJosé Uliano, da Crabi, e Pompilho Neto, representante dos agricultores, inspecionam a Fazenda Centenário, em Cascavel, a primeira a ser ocupada
Durante muito tempo, os agricultores que terão que deixar as terras que ocupam há décadas às margens do Rio Iguaçu, no Oeste/Sudoeste, com a construção da Usina de Salto Caxias, travaram disputa acirrada com a Copel em busca da justa indenização ou de novas áreas para reassentamento. As conversações, porém, raramente foram marcadas por animosidade. Agora, quando todo o processo se encaminha para a conclusão, a avaliação dos próprios agricultores é de que pode estar sendo dado um exemplo de esperança para todo o País.
A avaliação coordenador geral da Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Iguaçu (Crabi), José Uliano Camilo, que sustenta há pelo menos três anos a defesa das 3,5 mil pessoas que deixarão as margens do rio, em oito municípios, na faixa entre Capitão Leônidas Marques e Cruzeiro do Iguaçu. Além deste contingente, que optou pela oferta de reassentamento em terras adquiridas pela Copel, ocupantes de 1.700 propriedades preferiram receber em dinheiro para eles próprios comprarem terras onde acharem mais conveniente.
Também os indenizados têm motivos para celebrar o desfecho para o qual se encaminha todo o processo. Afinal, recebem em média cerca de R$ 7 mil por alqueire de terra nua, valor bem superior ao de terras que lhes são ofertadas na própria região. Quase todas famílias instaladas ao longo do Rio Iguaçu vieram do Extremo-Sul do País e elas formaram comunidades dividindo pequenas propriedades. Introduziram basicamente lavouras de milho e feijão por causa da topografia acidentada que impede a mecanização e criação de animais.
Segundo a própria Crabi, cerca de 98% do contingente permanecerá no campo, evitando o êxodo rural. A remoção de contingentes e impactos ambientais provocados por barragens são tratadas com rigor pela legislação ambiental, especialmente na Constituição Brasileira de 88, única no mundo com capítulo especial para o meio ambiente.
Donos de 1.700
propriedades
preferiram receber
em dinheiro
A Usina de Salto Caxias, com inauguração prevista para o final do ano que vem, é a primeira iniciada depois da promulgação da Constituição. Estamos mostrando na prática que quando o Poder Público acredita e investe no povo, os trabalhadores revelam que são capazes de construir uma nova realidade, diz Uliano.
O cordenador da Crabi observa que o processo tem envolvido vários setores nas discussões - além das partes diretamente relacionadas - como prefeituras, igrejas, sindicatos, movimentos ambientalistas, Ministério Público e políticos. Uma das preocupações foi evitar que pequenos agricultores se transformassem em sem-terra.
Os reassentamentos, para onde começam a ir em poucos meses, oferecerão os melhores resultados, quantitativos e em termos de qualidade, garante Uliano. Trata-se de gente que sabe produzir e que irá para outros municípios sem precisar de assistencialismo.


