Da Redação
Entre as mais de 100 famílias que invadiram a região de mangue na Vila São Vicente, em Paranaguá, pelo menos seis garantem que foram colocadas no local por ação da prefeitura. As pessoas alegam que a prefeitura fez a terraplanagem dos lotes, construiu as casas e prometeu água e luz, além de entregar R$ 1 mil a cada família. Elas foram retiradas do bairro conhecido como Ponta do Caju, próximo à rodoviária, há cerca de dois anos, sob a alegação de que ali seria erguida uma quadra de esportes. Até hoje, nada foi construído.
Construídas em uma área aterrada, as casas têm todas o mesmo padrão, sendo um pouco superior à da maioria das moradias do lugar. O pedreiro Sérgio Albino, de 24 anos, é um dos que afirmam que sua casa foi construída pela prefeitura. Ele diz estar descontente com a situação, apontando para a extremidade exposta de uma manilha, rodeada de entulhos, que serve como esgoto. A situação mostra que a região não tem nenhuma infra-estrutura para habitação. De acordo com os moradores, não há saneamento básico, o odor de mangue é muito forte e, quando chove, dejetos fecais e o lixo acumulado vêm à tona, invadindo as casas.
Outra moradora, a dona-de-casa Márcia Gonçalves da Silva, de 35 anos, diz que, apesar de tudo, gosta do lugar em que mora. ‘‘O problema é que até hoje a prefeitura não deu água e luz como prometeu e aqui tem muito mosquito de noite’’, reclama. As ligações de água e luz são clandestinas. Uma das vizinhas fornece extensões elétricas para cinco casas e divide a conta com os moradores. Márcia diz que morou na Ponta do Caju durante 25 anos e que a desocupação da área ocorreu de forma violenta, pois as pessoas recusavam-se a sair do local. ‘‘O oficial de justiça ameaçou jogar o filho da minha cunhada, de nove meses, na rua. Ele queria que a gente ficasse no Palácio de Esportes. Falou que na hora de fazer sexo era só puxar um lençol que ninguém iria ver’’, denuncia.
O prefeito de Paranaguá, Mário Roque, nega que a prefeitura construiu as casas e diz que as pessoas estão mentindo. Ele afirma que a desocupação realmente aconteceu, mas as famílias foram transferidas para a chamada Vila Esperança, em uma área próxima à estrada para as praias.‘‘Nós demos o material e o local para construção das casas. Se eles resolveram morar no mangue, é problema deles’’, afirmou. O prefeito declarou que o problema da ocupação de mangues em Paranaguá ocorre há décadas e se estende por vários bairros do município. Ele diz, ironicamente, que a única solução para o problema ‘‘é mandar matar todo mundo e começar vida nova’’.
Roque falou que a prefeitura já deixou de se ocupar com as regiões de mangue, pois as áreas pertencem à União. ‘‘Isso é responsabilidade do Estado ou do governo federal. Toda vez que eu tento fazer alguma coisa, vem o Ibama e o IAP e diz que lá é área de preservação ambiental.’’ Em relação ao centro esportivo que deveria ser construído na Ponta do Caju, o prefeito disse que as obras começam no mês que vem. ‘‘Tivemos de retirar as pessoas muito tempo antes, pois esses projetos são demorados mesmo’’, explicou.

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