Érika Pelegrino
De Londrina
As quarenta e oito famílias que ocupam o fundo de vale do Conjunto José Belinati (zona norte de Londrina) fizeram ontem um protesto pela falta de condições de vida no local. Reunidos no local, eles reclamaram da falta de energia elétrica, principal dificuldade para a realização das tarefas básicas do dia-a-dia.
Eva Aparecida da Silva Souza, 21 anos, o marido e dois filhos, de 5 anos e de dois meses, são alguns dos moradores que invadiram o fundo de vale há quatro anos. Segundo ela, o principal problema é a conservação de alimentos. ‘‘Sem energia elétrica não é possível ligar a geladeira para guardar os alimentos. O pouco que temos acaba estragando’’, contou.
A única renda da família vem de Antônio Marcos de Souza, 26 anos, marido de Eva. ‘‘Ele ganha R$ 260,00 trabalhando na frente de trabalho da prefeitura’’, afirma. ‘‘Antes de vir para cá morávamos com minha sogra’’.
As outras famílias vivem situação semelhante. Muitos moradores possuem renda mensal baixa e outros estão desempregados e procuram serviço. É o caso do pai de Camila, 15 anos. A família, composta por cinco pessoas - pai, mãe, e três filhos -, mudou-se para o fundo de vale há cinco meses, quando o pai perdeu o emprego.
Camila contou que a família morava no Jardim Paraíso (zona norte), mas não conseguiu mais pagar aluguel. Para a garota, a principal dificuldade imposta pela falta de energia elétrica é cozinhar à noite. Uma das alternativas encontradas por muitos moradores é o uso de lamparinas, que também tem seus perigos. ‘‘O barraco fica cheio de fumaça. Prefiro cozinhar no escuro’’, afirmou Camila.
O presidente da Associação de Moradores do Conjunto José Belinati, Aldemiro José dos Santos, afirmou que a expectativa é que o presidente da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), Assad Jananni, visite o fundo de vale até a próxima semana para avaliar as condições do lugar e apontar soluções. ‘‘Se ele não vier nós iremos novamente à Cohab’’, ameaçou Aldemiro.
Aldemiro afirmou que as famílias esperam que a Cohab encontre uma outra área para transferi-las. Mas Jananni explicou que esta não é mais uma política seguida pela Cohab, porque acredita que estimula invasões.
O presidente da Cohab lembrou que existem programas como o Poupalar, criado pela companhia para atender as famílias de baixa de renda, que precisam poupar 10% de seu salário para comprar o terreno. No caso das famílias que não possuem renda, Jananni diz que ‘‘não é possível dar casa de graça para ninguém’’ e sugere que seja realizada uma campanha para que a comunidade doe casas para estas pessoas.
‘‘Estas campanhas existem’’, afirmou. ‘‘A Cohab tem um convênio com o Rotary Club para a construção de 20 casas para pessoas que não têm renda’’, comentou. Quanto à energia elétrica, Jananni disse que é impossível colocar no lugar. ‘‘É proibido ocupar fundos de vale’’.
Em Londrina, mais de 1.500 famílias encontram-se nas mesmas situações que os moradores do fundo de vale do José Belinati. Segundo Jananni, aquelas que estão em terrenos públicos ou particulares que podem ser regularizados - não é o caso dos fundos de vale - estão sendo cadastradas pela Cohab para, através do Poupalar, comprar o terreno do proprietário.
As outras famílias, segundo ele, devem participar do Poupalar para, de acordo com a necessidade de cada um, a Cohab encontrar um terreno para a família morar. ‘‘Só não iremos atender famílias que participaram de invasões a partir de janeiro deste ano, como a do Conjunto São Lourenço (zona sul). Não queremos mais invasões’’, avisou.

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