Nas proximidades de bancas fartas de frutas e verduras, uma imagem triste de brasileiros em crise: uma família inteira pedindo dinheiro para os consumidores de uma feira livre na zona leste de Londrina. O pai, mesmo estando empregado, afirmou que não tinha condições de manter a família com um salário mínimo.
O flagrante aconteceu sábado, depois da reportagem ter recebido denúncias de moradores próximos à praça Concepcion del Paraguay, do Jardim Novo Aeroporto, um dos bairros nobres da cidade. ''É muito triste ver as crianças pedindo moedas. Sei que os pais devem estar em dificuldades, mas isso não justifica tal atitude'', disse uma das feirantes, que pediu para não ser identificada.
A Folha abordou o grupo dois adultos e cinco crianças e confirmou que apenas um menino de quatro anos era filho do casal Cristiano Resende dos Santos e Patrícia dos Santos Pires. ''O restante são sobrinhos e primos. Não temos condições financeiras e acabamos pedindo uma ajuda aqui na feira'', disse Patrícia.
Para Santos, que tem emprego fixo de servente de pedreiro em uma construção no centro da cidade, o salário de R$ 200,00 não é suficiente para garantir o sustento dos familiares. ''Faz uns sete meses que não recebo mais cesta básica e isso faz uma diferença enorme. Moramos de favor nos fundos de uma casa e ainda assim não temos condições de manter a família com o salário mínimo'', comentou Santos, que tem 26 anos e mora no Conjunto Guilherme Pires (zona leste).
Questionados sobre o fato das crianças estarem pedindo dinheiro na rua, eles afirmaram que já foram abordados pelo Conselho Tutelar. ''Uma vez eu estava vendendo capas (de videocassete) e o pessoal nos abordou, dizendo para não deixarmos os meninos na rua com a gente. Mas o que podemos fazer com toda esta crise?'', respondeu Patrícia.
A conselheira Silvina Helena Vitoreti, plantonista do Conselho Tutelar, disse que iria buscar informações sobre a família e acionar o Sinal Verde, projeto que tem como objetivo abordar crianças, adolescentes e adultos em situação de mendicância. ''Talvez eles já estejam sendo atendidos por algum programa da prefeitura. É possível encaminhar os pais e as crianças para algum projeto e ainda atendê-los com cesta básica, como é feito pelo Sinal Verde'', explicou Silvina.
O projeto atende denúncias diariamente, abordando pessoas entre oito e 23 horas. Criado em maio do ano passado, o Sinal Verde conta com cerca de 30 profissionais, entre técnicos, auxiliares de abordagem, auxiliares educativos, administrativos e pessoal de apoio. Informações das duas entidades apontam que casos semelhantes ao da família de Cristiano ocorrem em outras regiões da cidade. Outro levantamento feito ano passado apontou que mais de 110 pessoas vivem nas ruas de Londrina.
Qualquer denúncia pode ser feita pelo telefone (43) 9991-4568 (Sinal Verde) ou (43) 9991-6752 (Conselho Tutelar). O registro de ocorrências funciona 24 horas.

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