Maigue Gueths
O jardineiro André Ribas, de 64 anos, e o aposentado Francisco Rosa, de 69, moram há mais de 25 anos com suas famílias em casas situadas à beira do Rio Barigui, ao lado da primeira ponte na BR-277, bem em frente ao parque de mesmo nome. Há alguns meses eles estão sendo intimados pela Cohab a deixar os terrenos e procurar outro local para morar. Das 27 famílias que moravam na área, 24 já saíram, transferidas para terrenos indicados pela própria Cohab, mas três ainda resistem. Elas alegam que não têm para onde ir e muito menos dinheiro para pagar o valor pedido pela Cohab.
Os moradores não sabem explicar o porquê de estarem sendo retirados do local, mas acreditam que há alguma relação com a construção de um shopping center no terreno ao lado. O coordenador do Projeto Habitação do nstituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Marco Aurélio Becker, nega esta versão. Segundo ele, a prefeitura decidiu retirá-los da beira do rio em função das constantes inundações causadas pela chuva. ‘‘Até a Secretaria da Saúde já havia nos alertado sobre o alto índice de doenças por água contaminada’’, diz. Eles estão oferecendo às famílias lotes no Tatuquara e nas Moradias Reno, perto da fábrica da Coca-Cola, a ser pago em prestações e prazo variável, confome a situação de cada família.
Segundo André Ribas, para saírem do local, a Cohab ofereceu a todos um empréstimo de R$ 600,00 para ajudar na reconstrução da moradia e um terreno a ser pago em prestações que começariam em R$ 25,00 até chegar a R$ 60,00, totalizando, no final, R$ 2.000,00. André, que mora com sua esposa Jandira, de 60 anos, ganha, como jardineiro, cerca de R$ 60,00 por mês no inverno e R$ 180,00 no verão. ‘‘Como é que eu vou opagar um outro terreno com este dinheiro?’’, questiona.
O aposentado Francisco Rosa passa pela mesma situação. Ele recebe R$ 130,00 de aposentadoria, e vive em sua casa com mais sete pessoas, entre esposa, filhos, nora e netos. Segundo eles, a Cohab chegou a oferecer a quantia de R$ 4.000,00 para que saiam do terreno. ‘‘E o que que adianta eu receber este dinehiro e colocar as coisas num caminhão. Vou para onde?’’, pergunta.
‘‘Nós não vamos sair daqui’’, diz André, lembrando que a Cohab já ameaçou passar com os tratores em cima de tudo caso não mudem de idéia. Os moradores também criticam o local dos novos terrenos. Segundo eles, muitas famílias que se mudaram, já passaram o terreno adiante e foram para outras áreas de invasão, melhor localizadas.
‘‘A Cohab ou a Prefeitura sequer entregaram algum documento aos moradores explicando esta situação’’, queixa-se o advogado Reimar Trapp. Procurado pelos moradores, ele pretende, primeiro, enviar um requerimento à prefeitura para saber o que está acontecendo, quais os interesses da coletividade em relação àquela área e quais os critérios usados para estabelecer os valores. Ele acredita, entretanto, que os três moradores que ainda estão no local têm direito sobre a área por uso capião.

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