Famílias lutam diariamente pela liberdade
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terça-feira, 25 de novembro de 2008
Mariana Guerin<br>Equipe da Folha 
Londrina - A cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Em Londrina, 487 mulheres foram agredidas até outubro deste ano. No ano passado, um total de 510 mulheres registraram queixas contra a violência doméstica, conforme informações da Secretaria Municipal da Mulher. Para mudar essa realidade, a Prefeitura lançou, no início do mês, a Campanha Municipal de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher.
Cursos, palestras, teatro e oficinas temáticas englobam as ações da campanha, que refere-se ao Dia Internacional pela Não Violência Contra a Mulher, lembrado no dia 25 de novembro. Conforme a secretária da Mulher de Londrina, Maria José Barboza, um dos eixos das políticas públicas para o enfrentamento da violência doméstica é o investimento na capacitação, qualificação ou mesmo iniciação profissional da mulher, principalmente a que não consegue independência e permanece submetida ao agressor.
Na Zona Sul, um grupo de mulheres se apegou ao bordado para modificar a dura realidade. É na Associação das Mulheres Batalhadoras do Jardim Franciscato que muitas mães de família buscam recuperar a liberdade perdida. Segundo a secretária da Associação, Claudinéia Batista Ferreira, as mulheres chegam de mansinho, com vergonha de admitir que estão sendo violentadas em casa. "Elas sempre dizem que é uma terceira pessoa, mas percebemos o desespero nelas." E é conversando com outras mulheres que elas tomam coragem para abandonar o lar violento.
Conforme Claudinéia, também é comum as mães relatarem a transformação no comportamento dos filhos que convivem com pais violentos. "As crianças vivem com isso guardado e até as brincadeiras são diferentes, se tornam um reflexo da realidade que estão vivendo. A conversa não é mais a mesma e muitos amadurecem cedo, assumem uma responsabilidade que não é deles", comentou.
Nos casos relatados pela secretária, é recorrente os filhos descontarem nos colegas de escola a raiva que sentem pelos pais. "Pelo menos um caso novo de violência doméstica é registrado por dia aqui na associação. E são muitos os pedidos de pensão alimentícia e separação que temos de encaminhar", citou.
Infernal, assim foi o casamento da secretária Lúcia (nome fictício), 41 anos, que depois de 18 anos convivendo com um marido alcoólatra decidiu se separar. Foram 16 anos de abusos: xingamentos e ameaças, que muitas vezes se tornaram marcas roxas no corpo. "Não denunciei antes porque tinha medo de me expor, de expor minha família. Tinha medo da violência que viria se eu contasse."
Hoje ela vive com as duas filhas mais novas numa casa de dois cômodos cedida por amigos, mas paga aluguel. O filho mais velho ainda mora com o pai e, segundo Lúcia, "está indignado". "Ele até já colocou uma faca debaixo do travesseiro para matar o pai", confessou. Lúcia perdeu as contas de quantos boletins de ocorrência já registrou contra os maus-tratos do marido, que não compareceu a nenhuma das audiências na Delegacia da Mulher. "Sinceramente, ele não precisa ficar preso, só quero ele longe de mim", desabafou.
Separada há quatro meses, ela descreveu os filhos como tensos. "Sinto que são crianças nervosas, que querem se defender de tudo e de todos. Perto do pai, as meninas tremem, têm dor de estômago, de cabeça. A mais nova até passou por um tratamento psicológico", contou. Segundo ela, apesar do medo constante, as crianças não são violentas. "Eles não têm vícios e são bem estruturados porque vão à Igreja", disse.


