Josoé de CarvalhoSem acordoO lavrador Orlando Neves, 79 anos, oito filhos: ele não quer nem ouvir falar em visitar a famíliaExcluído, subestimado, desrespeitado, maltratado e abandonado. Esse é o perfil do idoso no Brasil, segundo o gerontólogo, advogado e escritor paulista Flávio da Silva Fernandes. Ele alerta: ‘‘A população brasileira deixou de ser jovem. Hoje a maioria está na fase adulta. Amanhã estará velha. E o País ainda não percebeu, nem está se preparando para isso.’’
Em 2025 o Brasil vai ser o 6º país do mundo em população idosa. Fernandes acredita que a reversão do quadro atual só será possível a partir de conscientização do idoso sobre seus direitos legais e intensificação dos movimentos da terceira idade.
É obrigação dos filhos dar assistência física e emocional aos pais, quando estes não tiverem mais condições de sobreviver sozinhos. O idoso pode, por exemplo, recorrer à lei para exigir dos filhos uma pensão alimentícia. O direito à moradia, tratamento de saúde, transporte e lazer, entre outros, também estão previstos. ‘‘Tudo está na Constituição’’, garante Fernandes acrescentando que, mesmo assim, direitos básicos dos idosos continuam sendo desrespeitados.
A Constituição Federal garante, por exemplo, o passe livre a todas as pessoas com mais de 60 anos, bastando, para ter acesso ao benefício, a apresentação de identidade à entrada do ônibus. Apesar disso, conta o advogado, na maioria das cidades brasileiras o idoso é obrigado a circular com uma carteirinha para poder usar o transporte coletivo de graça. ‘‘Muitas pessoas acham que idoso não tem direito. Que ele é um fardo para a sociedade. Mas o direito à cidadania começa quando nascemos e só acaba quando morremos.’’
Fernandes argumenta que a situação do idoso no País é um reflexo da visão capitalista. ‘‘Parou de produzir, não vale mais nada.’’ A primeira a colocar em prática esse preconceito, afirma o gerontólogo, é a própria família, que proíbe a pessoa mais velha de exercer qualquer atividade produtiva. Quando o idoso pára de trabalhar, a tendência da própria família é considerá-la inútil. O idoso é encostado em um canto, e passa a viver de pseudofavores, muitas vezes possibilitados pelo que ganhou durante uma vida de trabalho.
O resultado é que a palavra ‘‘aposentadoria’’ evolui rapidamente para ‘‘dependência’’ e ‘‘perda do direito de decidir’’. Segundo Fernandes, pesquisas mostram que 60% dos idosos brasileiros moram com suas famílias. Bom? Não. ‘‘Você já pensou no que sentiria se, de repente, tivesse de abrir mão da sua privacidade, da sua casa, do seu modo de ser e até do que demorou tanto tempo para conseguir: sua independência?’’
Na avaliação de Fernandes, a pior é imposição idoso ao idoso é proibi-lo de morar sozinho. ‘‘Aí começam os atritos.’’ O especialista diz que estudos comprovam que o principal agressor do idoso é a família. O médico explica que, despreparada emocionalmente para enfrentar o envelhecimento, a pessoa se sente fragilizada para impor resistência aos familiares e acaba se convencendo de que é realmente dependente.
Nos consultórios dos geriatras, são comuns as histórias de parentes que escondem a dentadura do idoso; trancam o velho em casa; obrigam que ele fique nu no quarto para não sair de casa; levam a televisão embora ou desligam o telefone para impedi-lo de se comunicar com outras pessoas. Fernandes acrescenta que também não são raros os casos de parentes que se apropriam da aposentadoria do idoso argumentando, que ele não tem mais condições de administrar seus ganhos.
‘‘Se o idoso tem uma poupança ou negócio, é problema na certa. São inúmeros os casos relatados de idosos que sofreram algum tipo de coação para assinar procurações, deixando que terceiros movimentem seus negócios’’, relata. Se a coação explícita choca, o descuido e a violência psicológica com o idoso também têm efeitos avassaladores. Fernandes cita pesquisas que constataram: 80% dos acidentes sofridos por idosos acontecem dentro de suas próprias casas. Contribuem para isso descuidos como deixar um tapetes escorregadios no chão ou não providenciar banquinhos como apoio para o banho.
Ministrar medicamentos, mais frequentemente calmantes, para fazer o idoso dormir, também é um artifício usado com o objetivo de ‘‘reduzir o trabalho que o idoso dᒒ. Fernandes diz ser comum, em véspera de feriados, que os hospitais atendam mais idosos. Ele relata que é muito usado por familiares o artifício de suspender uma medicação importante - para forçar uma crise, internar o idoso e ‘‘tirar uma folga’’.
Fernandes conta que muitos dos idosos que estão em asilos têm casa própria. ‘‘Eles são expulsos e aceitam sair como se não tivessem mais direitos.’’ O médico comenta que é comum o idoso ouvir da família que ela estaria melhor sem ele. Que ele só dá trabalho. ‘‘Perguntam uns aos outros, na frente do idoso, porque ele não vai embora? Porque não morre de uma vez? A crueldade humana é impressionante.’’

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