As mortes provocadas por falha, precipitação ou imprudência na ação de policiais civis e militares estão fazendo crescer o tom de indignação e de revolta dos familiares das vítimas em Curitiba. Os casos se repetem, com coincidências nos erros de procedimento e de interpretação por parte dos policiais durante as abordagens. Continua-se morrendo no momento em que a mão é posta no bolso para pegar os documentos, na hora de ir jogar futebol com amigos, na noite em que se reza. Muitos desses crimes, alguns cometidos há quase dez anos, continuam emperrados na Justiça.
Os erros, fatais, e a ausência de solução rápida para os casos não conseguem ser explicados pela cúpula da polícia, nem pelo comando da Secretaria da Segurança Pública. Ao lado da voz irada das famílias que esperam respostas, as autoridades dirigem as explicações para o excesso de trabalho, o estresse causado pela profissão, o risco inerente a qualquer ação policial. ‘‘Pode ter havido falha em alguns procedimentos, mas os erros são raros e devem ser vistos como exceção à regra de atuação dos nossos policiais’’, diz o recém-empossado secretário de Segurança Pública do Paraná, Rubens Abrahão Tanure.
As queixas contra a má atuação da polícia recebidas semanalmente na Procuradoria de Investigação Criminal e a força que os movimentos comunitários contra a violência vêm ganhando no Paraná, principalmente em Curitiba, desmentem a pouca frequência com que as ‘exceções’ estão ocorrendo. A demora na punição dos culpados, que na maioria das vezes continuam trabalhando enquanto o processo não é julgado, também reforça o sentimento de que a impunidade dos policiais é mais comum do que se admite oficialmente.
Alguns policiais chegam até a ser promovidos, apesar de terem seu nome ligado à autoria de um crime. O ex-policial do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), Ninrod Jois Santi Duarte Valente, acusado de estar envolvido em dois homicídios, é hoje superintendente da Delegacia de São José dos Pinhais (veja quadro).
Para as mães dos evangélicos Samuel dos Santos e Antônio Marcos da Rocha, mortos há um mês na Vila Conquista, em Curitiba, a ‘falha momentânea’ do soldado Siumar Antônio da Silva acabou com o que tinham de mais precioso. ‘‘Meu filho era um anjo, que queria bem a todos e que não merecia morrer de maneira tão injusta’’, diz Carmélia Bueno da Rocha, mãe de Antônio Marcos, de 22 anos, que sonhava em ser pastor da Assembléia de Deus.
Junto com o amigo Samuel, de 18 anos, ele foi morto por engano enquanto rezava. Ambos receberam tiros na barriga, no rosto e na nuca depois de terem sido confundidos com ladrões de carro. Os corpos dos rapazes foram jogados na Represa do Passaúna e só foram encontrados três dias depois do crime.
Os pais do estudante Luciano Salkovski, morto em julho de 1995 pelo tenente da Polícia Militar Demétrius Farias Lobo, não conseguem se convencer de que o filho morreu por acidente. ‘‘Ele estava indo de carro com os amigos comer um cachorro-quente quando foi perseguido e morto sem dó pela polícia’’, acusa João Salkovski Sobrinho, pai do estudante do primeiro ano do curso de de Engenharia Elétrica da PUC.
A tese do disparo acidental - ou da troca de tiros, como chegou a ser forjado pelos PMs - é ainda menos aceita pelos pais do estudante depois que o mesmo policial se envolveu, um ano e meio após a morte de Luciano, no assassinato do caminhoneiro Luis Antônio Ferraz, de 30 anos. Os dois processos estão atualmente em fase de instrução nas varas criminais. ‘‘O culpado já deveria estar na cadeia’’, diz o pai de Luciano.
Além dos homicídios, há reclamações de extorsão e de ameaças feitas pelos policiais às famílias das vítimas. Como os agentes são apenas transferidos para funções administrativas dentro das delegacias e quartéis, até que o processo seja julgado, as famílias afirmam ser alvo de perseguições dos autores dos crimes. ‘‘Enquanto houver impunidade dos culpados, nós continuaremos a mercê de bandidos’’, diz a mãe de um rapaz assassinado, que prefere não se identificar.
O vigor da acusação das vítimas incomoda a polícia, que se considera mal-interpretada pela sociedade. ‘‘É compreensível que os familiares das vítimas guardem alguma mágoa da polícia, mas nossa imagem e nossa conduta não podem ser abaladas por falhas comuns no exercício de qualquer profissão’’, afirma o comandante do Comando de Policiamento da Capital, coronel Reinaldo Hamilton Machado. Ele discorda das críticas que põem em dúvida o controle do comando da polícia sobre seus subordinados, e rebate as afirmações que questionam a qualidade dos policiais. ‘‘Temos boa formação, servimos bem à sociedade e somos considerados a melhor Polícia Militar do Brasil’’, diz.

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