Famílias choram ao ficar sem casa
Curitiba - Orações, gritos e palavras de ordem, crianças deitadas no asfalto, homens prometendo resistência. Nada disso adiantou para que os moradores garantissem a permanência na área invadida no bairro da Fazendinha. Depois de a polícia desmantelar as barricadas construídas para evitar o acesso ao local, muitos moradores iniciaram, ainda pela manhã, a destruição das construções erguidas no terreno.
A saída do local ocorreu com alguns ainda revoltados com os acontecimentos da manhã agitada, outros com os semblantes já conformados. Em muitos rostos, o choro de quem não tem para onde levar as coisas. Na porta de um barraco de poucos metros, entulhavam-se malas, algumas roupas, botijão de gás, louças. Dentro da casa, ainda a desarrumação de uma manhã de quinta-feira. Na porta, a desempregada Zilma da Silva Oliveira chorava por não ter para onde ir. A voz estava embargada e as lágrimas não deixavam de correr.
Junto com o marido, Nilson Pessoa, e os três filhos, a família veio de Santa Catarina para o Paraná atrás de emprego, que, segundo eles, estaria em falta no Estado vizinho. Na Fazendinha, acreditaram que uma vida seria construída com mais dignidade. Fruto de doação, ganharam um guarda-roupa e uma cama. "Se eu tivesse dinheiro para pagar aluguel, não estaria aqui hoje. Não sabemos onde vamos dormir essa noite", contou Zilma.
Érick Lino dos Santos, 23 anos, trabalhador da construção civil, está em uma situação diferente. Tem para onde ir. Carregando um colchão enrolado e outros objetos nos braços, disse que ia voltar para a antiga casa junto com a mulher. Sua quitinete, próxima a área ocupada, custa R$ 130 por mês de aluguel. "Quando começou a invasão, vim para cá porque precisava de um terreno", confidencia.
O suposto abandono do terreno da Varuna Empreendimentos é o principal argumento daqueles que não têm um teto. "Essa é uma área abandonada, irregular. Vou ficar aqui. Não é justo o que estão fazendo com o povo", lamentava em prantos a moradora Laurinha Dias.
A FOLHA procurou a Varuna, mas não teve retorno até o fechamento desta edição. Em contato anterior, a assessoria jurídica da empresa havia informado que o terreno de 210 mil metros quadrados deve abrigar empreendimento residencial e comercial, cujo projeto estaria em discussão junto a órgãos ambientais.
Mãe de dois filhos, Risete Aparecida fazia parte do grupo que defendia a resistência. "Vamos resistir. Vão tirar a gente hoje, mas depois a gente volta. Não podemos ficar sem casa", gritava. (T.A./Colaborou Andréa Lombardo)





