Famílias assentadas ainda vivem mal
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de abril de 1997
Elisa Marilia 
Da Sucursal
Albari RosaVida difícilHorta comunitária teve plantio prejudicado pela falta de chuva: sopa é preparada com ingredientes fornecidos pela cesta básica (detalhe)Fazer pães e biscoitos, cultivar uma horta, pintar e bordar, costurar e estudar à noite deveriam ser as atividades de rotina para a maioria das famílias que moram no Conjunto Ilha do Mel, em Curitiba. Cerca de 60 famílias ocupavam área de risco próximo a um viaduto, na divisa com São José dos Pinhais, e foram assentadas há dois anos no conjunto.
Todos vivem de catar papéis na cidade. As mulheres que ficam em casa não se animam muito para o trabalho. Apenas cinco fazem em média 20 pães diariamente para vender na própria comunidade por R$ 1,00 cada. Outras se responsabilizam pela sopa dada às crianças três vezes por semana. Aproximadamente dez pessoas trabalham na horta comunitária.
A grande maioria das famílias veio do Norte do Estado em busca de melhores condições de vida. Ao depararem com as dificuldades de emprego foram morar em áreas de risco como o Beco do Paletó Sujo.
Há dois anos receberam as casas da Cohab, com água encanada e luz. As prestações de quase todos estão atrasadas. Tem gente que nunca pagou, conta a moradora Cleusa Maria da Silva. De acordo com a Cohab, as prestações - de R$ 38,00 - quase nunca são pagas. O índice de inadimplência entre os moradores do local é de 90% e a Cohab vai propor a renegociação das dívidas.
O programa da horta comunitária é gerido pela Fundação de Ação Social, que mantém no local um instrutor. A falta de chuva já há dois meses prejudicou o início do plantio.
No entanto a reclamação geral das mulheres é a suspensão do programa da prefeitura Tudo Limpo. A gente garantia um salário mínimo por mês e recebia uma cesta pelo trabalho na horta e dava para ir vivendo, conta Cleusa Maria.
A prefeitura esclarece que o projeto Tudo Limpo é itinerante e atende aos bairros no sistema de rodízio. A prioridade é abrir frentes temporárias de trabalho para as pessoas que não têm outras alternativas, como os idosos. De qualquer forma, a FAS está revendo o programa, mas ainda sem definição das novas medidas.
Num barracão construído pela FAS para abrigar a cozinha e salas de aulas, as mulheres se revezam para fazer os pães e a sopa. A irmã Isabel Ficagna da Pastoral da Criança, coordena os trabalhos e se esforça para deixar todos mais animados. A gente já conseguiu muita coisa por aqui. Várias pessoas estão sendo alfabetizadas, eram praticamente todos analfabetos. Mas o trabalho é difícil, porque a pobreza é muita, reconhece a irmã.


