Família vai à polícia para internar doente
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domingo, 22 de outubro de 2000
Vânia Casado De Curitiba 
A família do aposentado João Maria Garbardo, de 53 anos, precisou recorrer à polícia para interná-lo no Hospital de Clínicas (HC), em Curitiba, ontem pela manhã. Ele apresentava um quadro de hemorragia e febre alta, e sangrava pela boca e o nariz.
De acordo com a família, o hospital se recusava a atendê-lo, alegando que o quadro do doente era irreversível e que ele estaria tomando o lugar de outro paciente. Gabardo foi vítima de um derrame cerebral há dois meses, ficou internado no HC durante um mês e meio. Recebeu alta na última sexta-feira, ainda inconsciente.
No final de semana, o quadro de saúde de Gabardo piorou e a família retornou com o doente ao hospital, quando teria havido a recusa do atendimento. O aposentado permanecia inconsciente. Segundo Aurora Aparecida Vilas Cordeiro, 33 anos, filha de Gabardo, ele não controla as funções vitais do organismo, está com traqueostomia (incisão na garganta para facilitar a respiração) e, por isso, precisa de cuidados especiais, que a família não teria condições de manter.
Aurora disse ter ficado desesperada ao ver seu pai jogado numa maca no serviço de pronto-atendimento do HC, sem receber atenção dos médicos. Quando ela ou a mulher de seu pai, Rita Damasceno, 67 anos, tentavam uma explicação para a suposta omissão, eles desviavam e diziam estar trabalhando. Desesperada, ela telefonou para uma advogada conhecida da família, que a orientou a procurar a polícia. Omissão de socorro é considerado crime.
Depois que Aurora registrou boletim de ocorrência no 1º Distrito Policial e comunicou a imprensa, a situação mudou. Segundo ela, seu pai foi rapidamente medicado, trocaram as fraldas que ele usava, que estavam sujas, e os médicos começaram a dar as explicações que antes se negavam.
A supervisora de plantão do HC, identificada como Irmã Isabel, foi procurada pela Folha, mas alegou excesso de trabalho e não atendeu a reportagem. A Folha também tentou falar com a direção do hospital, por telefone, mas nenhum diretor foi localizado. Maior hospital público do Estado, o HC é mantido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Aurora afirmou que a família não tem condições financeiras de cuidar do pai. Gabardo mora numa favela em Piraquara (Região Metropolitana de Curitiba), à beira de um córrego poluído, num barraco com duas peças. Ele e a companheira, Rita Damasceno, também aposentada, vivem com uma renda mensal de R$ 300,00, que é a somatória das duas aposentadorias.
A filha do aposentado disse que também não tem condições para cuidar do pai. Com o marido desempregado, ela cuida de três filhos, sendo um deles doente. A família sobrevive da renda de R$ 230,00, que Aurora ganha como auxiliar de cozinha, num restaurante de Piraquara.
Segundo ela, os médicos de plantão no HC informaram que a assistência social do hospital deverá encaminhar Gabardo ainda hoje para um local com atendimento especial.


