A atual situação da família da dona de casa Maria Francisca de Andrade Geraldo, 51 anos, é uma amostra dos efeitos perversos da ''expulsão'' dos antigos moradores das ilhas do Parque Nacional de Ilha Grande. A felicidade do tempo de ilhéus foi destruída pela falta de emprego e de perspectiva de futuro, dificuldades econômicas e, pior, pela violência típica das cidades.
Por mais de 15 anos, a família viveu em uma área de terra de 18 hectares na Ilha Grande. O cultivo de arroz, milho, feijão, frutas e outras culturas era suficiente para garantir a subsistência. A alimentação e o pequeno lucro da venda dos produtos eram incrementados pela criação de galinhas e pesca. Maria Francisca e o marido Luís José viveram, sobreviveram e tiveram três filhos na ilha. A grande enchente do início dos anos 1980 afastou-os da sua propriedade, a exemplo de centenas de outras famílias. Foram proibidos pelo Ibama de retornarem para casa.
O destino foi impiedoso. Empurrados para um assentamento em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, não se adaptaram ao clima e o solo não produzia o suficiente. Com a falta de chuvas, o cultivo de milho e mandioca era pouco para alimentar a família. Algum tempo depois, foram para a periferia de Guaíra (158 km ao norte de Cascavel), onde também moraram em assentamento por cerca de um ano. Maria Francisca emociona-se ao lembrar das dificuldades de viver por tanto tempo debaixo de ''palha de coqueiro.'' A ajuda governamental resumia-se a cestas básicas. A alternativa para consumir café, antes produzido com fartura, era o chamado ''fedegoso'', espécie de planta cuja definição no Dicionário Aurélio é ''fétido, que fede.'' ''Era ruim, mas era o que a gente tinha para tomar'', resigna-se. A água era levada por caminhão-pipa, mas considerada salobra pelos moradores.
A saída para lutar pela sobrevivência foi o sub-emprego. As filhas Natalina e Sergina, hoje com 28 e 26 anos, foram trabalhar como babá e empregada doméstica, respectivamente. O filho Antonio, também 28 anos, até hoje é funcionário de uma olaria da cidade. Mas o destino mais trágico foi o do marido Luís José. Seis anos atrás, foi esfaqueado e morreu em um assalto. A casa foi invadida por uma dupla que levou televisão e botijão de gás. Os autores seriam dois conhecidos da família, que nunca foram presos.
A saudade do marido é apenas uma das dores de Maria Francisca. A pequena casa na Avenida Martin Luther King, no Jardim Guaíra, está em estado precário. Não existe forro, e a chuva invade a sala, quarto e cozinha. A lembrança da moradia na Ilha Grande está bem viva na memória dela. ''Eram três quartos, sala, cozinha e uma área pequena nos fundos. A gente vivia da água do rio. Se pudesse, a gente estava lá até hoje'', queixa-se.
A exemplo do passado recheado de histórias tristes, o futuro não é nada promissor. Mas, apesar de trabalhar desde os 12 anos no serviço doméstico, Natalina ainda sonha com um destino melhor. Ela terminou o ensino fundamental e sonha em retomar os estudos para tornar-se veterinária. A tão aguardada indenização seria a solução de grande parte dos problemas. Mesmo que não garantisse a realização do objetivo de Natalina, serviria para dar mais dignidade à família. ''Daria para comprar uma casinha pra mãe, que já é de idade. A gente é jovem e ainda tem força para trabalhar'', ressalta a jovem. A sofrida Maria Francisca resume: ''Um alqueire de terra com uma casinha já daria pra sobreviver sossegado'', afirma, esbajando humildade e resignação. (F.R.F.)
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