Quando chegou em Londrina aos 17 anos, vinda da capital paulista, Carmem Vasques Matheus, 85, não conhecia as casas de madeira que tornaram-se tão tradicionais na história da cidade. Instalada no Norte do Paraná com os pais, irmãos e o noivo, ela viveu a experiência de morar em uma residência construída com a então abundante peroba rosa quando a família alicerçou a obra na Rua Pernambuco, em 1946, um ano depois de Carmem casar-se com Antônio Matheus Filho.
  A paixão pela sólida construção foi imediata. Já a relação com o imóvel foi duradoura e superou até mesmo a demolição após a venda do terreno para um empreendimento. Apegada ao local onde viveu por 40 anos, em 1986, Carmen e o marido transportaram a casa para uma nova área no Jardim Itamaraty (Zona Oeste).
  Passadas mais de seis décadas, a residência que remete à colonização de Londrina continua em pé. Em contraste com o bairro mais moderno, as vigas de madeira que abrigaram quatro gerações da família chamam a atenção pela ampla varanda, pelo jardim bem cuidado e pelo clima ‘‘de antigamente’’.
  No novo terreno, a planta e a fachada foram um pouco alteradas, mas detalhes originais como o piso de assoalho permaneceram. O serviço foi executado em três meses por experientes carpinteiros trazidos de Rancho Alegre, num trabalho artesanal. ‘‘Foi um desafio, mas o resultado ficou muito caprichado’’, disse a matriarca.
  Assim que chegou de São Paulo, na década de 40, Carmen encantou-se pelos lambrequins que ornamentavam as varandas das casas de madeira tão abundantes na região. Quando fixou moradia na residência construída pelo pai, depois da família de origem mudar-se para Santos (SP), ela não tinha planos de desfazer-se das sólidas vigas que passaram a dar abrigo para ela, o marido e as duas filhas.
  Na década de 1980, um comprador fez uma proposta pelo terreno, a área foi vendida e a madeira utilizada na reconstrução em novo bairro. ‘‘Nem cogitei construir em alvenaria. Sabia que a madeira era muito boa’’, contou ela, que utilizou os tijolos apenas na cozinha, na copa e no banheiro, para possibilitar o revestimento de azulejos. ‘‘A vizinhança achou estranho. As pessoas sentavam em frente à obra para assistir o trabalho dos carpinteiros.’’
  Alguns anos depois, a filha mais velha do casal, Marisa Vasques Matheus Fusco, foi morar no imóvel com a família para os pais, já idosos, mudarem-se para um apartamento. A residência que viveu a aventura de ser reconstruída passou, então, a fazer parte da memória dos sete netos e 20 bisnetos de Carmen.
  Palco de todo tipo de estripulias, o sólido assoalho acolheu a correria das crianças que, hoje, lamentam a venda do imóvel para uma amiga da família. ‘‘Eles vêm passar as férias em Londrina e reclamam que não têm mais quintal.’’ A bisneta Sabrina, de 8 anos, chegou a derramar algumas lágrimas quando, após a venda, passou em frente ao imóvel com a avó.
  ‘‘Morro de saudades das brincadeiras, das festas. Essa casa é muito legal’’, disse a garota. ‘‘O que mais me lembro é que a gente nadava na piscina, ficava correndo em volta do quintal e levava bronca da minha avó por entrar molhada na sala’’, acrescentou Sabrina, que não conteve exclamações de saudade ao retornar à casa no dia da entrevista.
  Depois de construir e reconstruir o imóvel, a família - que passa apenas parte do ano em Londrina - decidiu pela venda há três anos, quando Marisa ficou viúva e mudou-se com a mãe para São Carlos (SP). Para sorte de todos, entretanto, a compradora foi Vanderleci Elina Schulze, uma amiga de infância que, saudosa do tempo em que brincava com Marisa e a irmã Viviane na Rua Pernambuco, adquiriu a construção com o propósito de mantê-la da maneira como foi concebida.
  Mãe de cinco filhos, ela conta que todos aprovaram o negócio. ‘‘Não tive dúvidas na hora de comprar. É uma casa muito confortável e que me traz boas lembranças. Não tenho a menor intenção de desmanchá-la.’’

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