Família quer limpar imagem da menina

Marcelo Almeida
Maria: ‘‘É a mesma coisa que enfiar uma faca no coração da gente. Temos que ficar quietos porque somos pobres’’Advogado Osmann de
Oliveira acusa menina
assassinada de ser
prostituta e traficante
James Alberti
A ex-diarista Maria José de Oliveira, 58 anos, entra na sala da casa número 110 da Rua Taquara, no Capão da Imbuia, em Curitiba, senta no sofá e começa a chorar. Ela é avó da menina Franciele de Oliveira, morta aos 10 anos de idade com um tiro de espingarda pelas costas no dia 31 de dezembro de 1996. Maria, assim como toda família, não se conforma com a decisão dos jurados que inocentaram, na quarta-feira, o comerciante Mariano Antonio Voltolini, único acusado do crime. Desde a morte brutal da criança, disse a avó, a casa se transformou num local de dor, revolta e muitas lágrimas: ‘‘Nunca vou me conformar, só quando eu morrer’’.
‘‘Chegou na hora (do julgamento) e tudo foi abafado, tudo foi mudado’’, reclama Maria José, que não foi ao julgamento porque estava doente. Abatida por causa de uma úlcera nervosa surgida depois do crime, a avó de Franciele acha que não vai resistir a tanta mágoa e sofrimento. ‘‘Isso vai ser o fim. É muito pesado para a gente resistir... ver que nada foi feito’’. Ela disse que ainda tem um pouco de esperança de ver os homens fazerem justiça e pede a Deus para devolver o ‘‘castigo’’ ao assassino a neta.
O que mais machuca a família, segundo ela, é ouvir as injúrias contra Franciele. Durante o julgamento, o advogado de Voltolini, Osmann de Oliveira, acusou a menina de ser prostituta e fazer tráfico de drogas. Para Osmann, a morte da menina seria ‘queima-de-arquivo’ relacionada ao tráfico de drogas.
‘‘É muita baixesa, meu Deus’’, disse, chorando, a tia de Franciele, Maria Joana de Oliveira Souza, 34 anos, vendedora de cachorro quente. ‘‘É a mesma coisa que enfiar uma faca no coração da gente. E a gente tem que ficar quieto porque é pobre’’. Para Maria Joana, o pecado de Franciele foi ter nascido pobre, órfã e no Brasil. ‘‘Nos Estados Unidos, acho que não tem disso... de ter dinheiro e não pagar pelo que fez.’’
A avó disse que pode provar que Franciele trabalhava com ela, vendendo doces e flores. Era com esse dinheiro, mais a pensão de um salário mínimo do marido morto, o ex-ferroviário Joaquim Antunes de Olvieira, que Maria vivia e ajudava no sustento de sete netos e duas bisnetas, Franciele inclusive. Para livrar a imagem da neta das calúnias, Maria recorre aos comerciantes que forneciam os doces que ela vendia. ‘‘Agora, para difamar, qualquer um pode falar o que quiser’’, disse a avó. ‘‘Mas nós temos provas, nas doceiras que vendiam os doces para nós’’.
Basta entrar na casa simples da família de Franciele para perceber como são cruéis e injustas as acusações feitas à menina. Além do mais, como disse, insistentemente, o juiz Luiz Zarpelon durante o julgamento de Voltolini, uma criança de 10 anos jamais é prostituta, no máximo vítima de estupro.

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