Família que veio em 95 ainda espera vida melhor no Paraná
Milton DóriaDura mudançaLaura Marcondes e os filhos, em assentamento de sem-teto: A gente não pode perder nunca as esperançasTreze de maio de 1995. Essa data ficou marcada na memória da família Marcondes. Depois de 15 anos vivendo em Diadema, na Grande São Paulo, José Miguel Marcondes, a esposa Laura e os seis filhos deixaram a capital paulista rumo ao Paraná, mais precisamente a Paranacity (66 quilômetros ao norte de Maringá). A trajetória dessa família, que hoje mora em um assentamento de sem-teto na zona oeste de Londrina, praticamente no limite com Cambé, é um exemplo da realidade dos migrantes que a cada ano deixam as grandes metrópoles para procurar ganhar a vida em cidades do interior do Brasil.
Laura Marcondes conta que em São Paulo trabalhava como costureira e o marido era operário da Ford, fabricante de automóveis. A vida não era fácil, mas os dois salários davam até com folga para pagar aluguel, alimentação e garantir a escola para os filhos. Problemas familiares - a mãe da costureira ficara muito doente em Paranacity e precisava de ajuda da filha - aliados ao fantasma do desemprego, que rondava sistematicamente as grandes empresas, fizeram a família decidir deixar a Grande São Paulo, fazendo o caminho inverso que o casal tinha tomado 15 anos atrás; ou seja, voltar ao Paraná.
A primeira parada foi mesmo Parnacity. José Miguel conseguiu serviço em uma mina de carvão, Laura cuidava da mãe e os filhos foram encaminhados para a escola. O sonho de uma vida nova, no entanto, começou a desmoronar. O emprego do meu esposo não era fixo. Ele ganhava R$ 7,00 por dia e isso não dava nem para pagar o aluguel. Meus irmãos tinham que ajudar até para comer. E para mim não havia trabalho um ano e meio. Londrina surgiu como opção não só pela presença de alguns parentes de Miguel mas, principalmente, pela fama de cidade emergente, pólo de atração de grandes empresas e boas oportunidades de trabalho. A família finalmente se mudou no começo do ano passado, com as esperanças redobradas. A gente achou realmente que aqui seria mais fácil conseguir emprego, lembra Laura. E a Universidade (Estadual de Londrina) também pesou bastante, por causa dos nossos filhos.
Chegando em Londrina, José Miguel não perdeu tempo e percorreu agências de emprego, preenchendo fichas para trabalho. A família alugou uma casa no Jardim Novo Bandeirantes, na vizinha Cambé, e as crianças foram matriculadas na escola. O emprego, no entanto, não aparecia e o marido passou a trabalhar como servente de pedreiro e também como pintor de casas. Ainda assim, o dinheiro não era fixo e mal dava para pagar despesas básicas, como aluguel e alimentação.
Há seis meses a família Marcondes deixou a casa de cinco cômodos do Novo Bandeirantes e levantou um barraco no assentamento ao lado do Jardim João Turquino - ou Olímpico 2, como também é conhecido -, na zona oeste de Londrina. A maioria dos móveis teve que ser vendida para que o casal e os seis filhos - o menor com três anos e o maior com 14 - pudessem viver com o mínimo (ou o possível) conforto no pequeno espaço. Em São Paulo a vida era melhor. Dava para sobreviver ou pelo menos pagar o aluguel, aponta a costureira. Para vir para cá tem que ter muita coragem.
Mas está enganado quem acredita que sobrou em Laura qualquer ponta de arrependimento por causa da mudança radical. Ela mantém o otimismo e tem certeza de que a escolha por Londrina foi acertada. Motivos não faltam: em São Paulo, ela lembra, as crianças viviam presas, dentro de casa; aqui há mais liberdade. A poluição e o ritmo alucinado da capital também castigavam a saúde de todos; em Londrina, esses problemas não preocupam.
Meu marido às vezes até pensa em voltar para São Paulo, onde ele acha que será mais fácil conseguir emprego, diz Laura. Mas não concordo. Espero e tenho fé em conseguir emprego para mim e para ele. Espero também que meus filhos estudem e façam faculdade. A gente não pode nunca perder as esperanças. Tenho certeza de que tudo ainda vai dar certo.





