Michele Muller
De Curitiba
A família que invadiu um terreno no Xaxim, em Curitiba, e teve a casa derrubada pela prefeitura, na última terça-feira, não aceitou o abrigo oferecido pela Fundação de Ação Social (FAS). Ontem, a assistente social Vera Jane Pastre, que cuidou do caso, descobriu o motivo: o operário Valdedir Ribeiro dos Santos, sua mulher Marisa dos Santos e dois filhos invadiram a área não por falta de moradia, mas para viver perto de seus parentes. Eles moram há cinco anos em uma casa na Vila Osternack.
Segundo o assessor de administração da regional do Carmo, César Gomes Santos, essa foi a quarta vez que o terreno do Xaxim, localizado na região do Jardim Esmeralda, foi ocupado irregularmente. ‘‘Sempre recebemos telefonemas anônimos com denúncias de invasão. Mas das outras vezes ainda não haviam construído casa’’, diz. A área pertence à prefeitura e é considerada imprópria para ocupação, pois fica em fundo de vale.
A assistente social Vera Jane garantiu que irá ajudar Valdecir na inscrição para um lote da Companhia de Habitação da Prefeitura (Cohab). O responsável pelo projeto de habitação da prefeitura, Marco Aurélio Becker, afirma que existem cerca de 60 mil pessoas inscritas no Cohab, à espera de um lote ou moradia. São atendidas apenas cerca de 6 mil famílias por ano.
‘‘A demanda por moradia é muito maior que a oferta. As pessoas estão precisando de moradia barata, e não existe o suficiente. Por isso acontecem as invasões.’’ Ainda não foi feito um registro do número de terrenos invadidos nos últimos dois anos. Mas ele acredita que é bem maior que os 32.356 contabilizados pelo Instituto de Planejamento e Pesquisa de Curitiba (Ippuc) até 97. A maior concentração de ocupação de locais irregulares está nos bairros Cajuru e Cidade Industrial.
No ano passado, a prefeitura retirou 800 pessoas de áreas invadidas. ‘‘Só podemos tomar providências quando recebemos a denúncia antes da família terminar de construir a casa’’, explica Marco Aurélio. ‘‘Muitos realmente precisam de moradia, mas há aqueles que fazem a ocupação por malandragem’’, continua.
Valdeci foi citado por Marco Aurélio como um desses malandros. Ele disse aos funcionários da prefeitura que era de Barbosa Ferraz, no Norte do Estado, e havia chegado em Curitiba há apenas três meses. Parte desse tempo teria passado com a família debaixo do viaduto do Xaxim.
Na verdade, o invasor trabalha em uma fábrica de produtos de limpeza. Sua casa, simples, abriga televisão e aparelho de som. ‘‘Menti porque quero sair daqui. Essa região é perigosa demais’’, conta o operário. A dona de casa Marisa dos Santos, mulher de Valdecir, diz que tem medo de ficar sozinha com os filhos no local onde mora e por isso resolveu viver perto de amigos e parentes.

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