Lúcio Flávio Moura
Enviado a Figueira
Há cinco anos, desde a morte do encarregado de serviços gerais Henrique Catânio, aos 68 anos, filho e viúva tentam provar que ele foi vítima de descaso e negligência do departamento médico de um poderoso conglomerado empresarial de Figueira (125 km ao sul de Jacarezinho), no Norte Pioneiro.
Henrique Catânio, morto em junho de 1995 aos 68 anos, trabalhava na Madeireira Rio das Pedras, empresa ligada à Carbonífera Cambuí (que forma um conglomerado familiar com a Madeireira Rio das Pedras e a Transportadora Figueirense) responsável por boa parte da renda e dos empregos no município.
Marcelo, 26 anos, e sua mãe Noêmia Martins Catânio, 63, reclamam da negligência do médico Mário de Souza Martins, atual vice-prefeito, e querem indenização para compensar o que chamam ‘‘de precipitação da morte’’ de Henrique.
Mineiro por 16 anos (onde conseguiu sua aposentadoria), chefe de segurança por 10, ambos na carbonífera, e encarregado de pátio por outros 10 na madeireira, Henrique foi vítima de atropelamento em uma rodovia que corta a cidade em maio de 1995.
Atendido no Hospital Harmonia, em Telêmaco Borba, com fissuras nos ossos da perna e da bacia, além de profundos cortes nas pernas, braços e na altura da costela, ele permaneceu apenas dois dias internado, com recomendação médica de cumprir repouso absoluto por um mês, retornando ao hospital ao final deste prazo.
De licença médica (que para aposentados na ativa, caso de Henrique, não é remunerada), passando por dificuldades financeiras, pouco antes de expirar o prazo do repouso, voltou à empresa (segundo a família, sob alta do médico que atendia funcionários das quatro empresas que formam o conglomerado da Cambuí) e ao trabalho. Nove dias depois, morreu em Telêmaco Borba.
No atestado de óbito, consta como causa da morte choque hipovolêmico e hemorragia digestiva. Por falta de comunicação do departamento médico da Cambuí, consta no documento que a morte foi natural e não acidental (como queria a família), o que derrubou pela metade o valor pago pelo seguro de vida.
‘‘Meu pai sofria de dores intensas, mas não reclamava para a empresa com receio de entrar em nova licença e não receber o salário’’, lembra Marcelo, referindo-se ao período em que ele trabalhou depois do acidente. ‘‘Não conseguimos transporte para levá-lo a Telêmaco e ele continuava trabalhando no sacrifício’’.
Uma de suas tarefas, mesmo depois do acidente, era percorrer – a cavalo – durante quase todo o dia, parte dos 1,5 mil hectares onde são plantados eucaliptos que abastecem a madeireira e fábricas de papel, como confirmou à Folha, Carlos Roberto da Silva, ex-funcionário da madeireira que lembra do colega queixando-se de dores.
O trânsito na propriedade era uma espécie de fiscalização dos arrendatários, que plantam leguminosas nas áreas onde os troncos de eucaliptos estão se recompondo do corte.
Mãe e filho também reclamam do tratamento dado a Catânio nos nove dias de trabalho que antecederam sua morte. ‘‘Ele chegou a passar mal na roça, solicitou socorro, mas foi convencido a esperar até o final da tarde para viajar junto com outros trabalhadores’’, acusa a viúva.
Para sobreviver, Marcelo, que trabalhou durante 4 anos como auxiliar da Transportadora Figueirense (uma das empresas do conglomerado), comprou uma máquina para estampar camisetas. ‘‘Ainda ganho muito pouco e estou sem perspectiva’’. O rapaz complementa com sua nova atividade os modestos ganhos (R$ 193,00) proporcionados pela pensão que o INSS paga a sua mãe.
Marcelo atribui a situação de dificuldades e incertezas às pressões e ao boicote da diretoria da Cambuí. ‘‘Fiquei muito revoltado com a morte do meu pai e decidi procurar nossos direitos, mas passei a ser perseguido, humilhado e pedi demissão’’. Seu desligamento ocorreu um ano após o acidente, no momento em que, segundo ele, a empresa soube que a família pediria indenização por meio judicial.
Para aumentar o drama, Marcelo e a mãe estão procurando o quarto advogado, depois de se decepcionar com os três primeiros. ‘‘Ou são incompetentes, ou estavam com medo da Cambuí, ou foram subornados, porque até agora o caso não foi parar na Justiça. Somos humildes e as pessoas se aproveitam’’, arrisca Marcelo.

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