Família em crise. Será?
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segunda-feira, 05 de outubro de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Filhos únicos, adotados, com dois pais ou duas mães, filhos de mães ou pais solteiros, frutos de inseminação artificial, de guarda compartilhada, filhos abandonados, casais sem filhos: será que o modelo de família nuclear - pai, mãe e um casal de filhos - que conhecemos está em crise?
''É difícil falar em um novo perfil de família, já que no passado muitas configurações eram ofuscadas pelo modelo hegemônico, mas as mudanças provocadas pela virada do século trouxeram consequências para a realidade que vivemos hoje'', diz a antropóloga Martha Ramirez-Galvez, professora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Principal transformação na composição familiar, a redução do número de filhos reflete, especialmente, a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, para complementar o orçamento da casa: a partir dai surgiram os contraceptivos que garantem o controle reprodutivo. ''Agora, as mulheres começam a pensar em ter filhos mais tarde, a partir dos 35 anos'', cita Martha, destacando que o aumento da expectativa de vida também contribuiu para que as famílias tivessem menos filhos. ''Antes se tinha mais filhos porque um sempre morria.''
''Paralelamente temos as famílias homossexuais e a monoparentalidade. Hoje, as mulheres estão tendo filhos sozinhas, seja por reprodução assistida, adoção ou mesmo sexo'', aponta a antropóloga, ressaltando que esses modelos se apresentam como a desmoralização da família nuclear defendida pela lei, pela Igreja e pelo Estado. ''Por isso se diz que a família está em crise.''
Para Martha, esses modelos de família sempre existiram, mas não eram reconhecidos socialmente. Ela alerta que muitas mudanças surgiram depois da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente. ''Pela nova lei não é preciso ser um casal para ter filhos, o que leva à pergunta: será que a família nuclear deve ser mesmo o sonho de consumo de toda a sociedade?'', questiona.
Pelo estatuto, pais adotivos são incentivados a falar abertamente com os filhos sobre a adoção, o que não acontecia no passado, lembra a antropóloga, explicando que dessa forma as consideradas novas configurações familiares tornam-se mais aceitas socialmente. ''Todo mundo está se adequando às novas realidades e apesar de não ter lei, já existem jurisprudências.''
Conforme Martha, os próprios movimentos sociais reivindicam a não discriminação em função do sexo. ''Em toda a história o homem sempre se organizou em grupos para se cuidar e cuidar de seus filhos, então por que não escolher como pais indivíduos com quem a criança tem mais afinidade?'', sugere a antropóloga, lembrando que o Estado se preocupa tanto em determinar a parentalidade apenas para minimizar o ônus com a criação dos futuros cidadãos.
''Função da família é produzir e educar seres humanos e quando é oficializada num ritual, como o casamento, ela se transforma num valor, representando um monopólio de afeto e sexualidade. É a sacralização do sexo'', opina Martha, reforçando que os filhos têm graus de importância diferentes entre as diversas classes sociais.
''Hoje, há um adiamento da maternidade nas classes mais altas: as mulheres se planejam para construir um patrimônio antes de ter filhos. Já nas classes populares, ter filho é um ritual de passagem, um símbolo de maturidade. Ter a própria família é a única projeção das adolescentes'', comenta a antropóloga.
Para ela, a questão é avaliar que modelo reprodutivo está mais adequado ao projeto de vida do indivíduo: ''Atualmente, os modelos se combinam e são vigentes'', assinala. Conforme Martha, o desafio da pesquisa é pensar as diferentes formas de arranjos domésticos e afetivos que permitam às pessoas cuidarem umas das outras: ''Pode-se chamar de família ou diferentes arranjos''.


