A família do pedreiro José Geraldo Batista, 24 anos, que ficou paraplégico após ser preso e baleado pelo policial Mário Jorge da Silva, na madrugada de sexta-feira, em Foz do Iguaçu, acusa o policial de estar embriagado no momento da prisão. Silva estava no mesmo restaurante que a vítima, em companhia de um amigo, e levou o pedreiro para a 6ª Subdivisão Policial (SDP) em seu carro particular.
O comando da Polícia Civil na cidade informou que o procedimento adotado pelo policial é normal. ‘‘Se qualquer pessoa pode prender alguém, um policial então, tem o dever de prender. Independentemente de estar em serviço ou não’’, disse o delegado-chefe da 6ª SDP, Luiz Carlos de Oliveira.
A polícia alega que quando o pedreiro descia do carro, ainda no pátio da delegacia, ele teria atingido o policial com um soco no rosto. Em seguida, teria sacado uma pistola 9 milímetros e tentado acertar o policial, que disparou um tiro nas costas do pedreiro, durante uma tentativa de fuga. A família do pedreiro desmente esta versão. Segundo ela, após ser espancado pelo policial, Batista foi liberado. Quando saía da delegacia, teria sido atingido com um tiro.
‘‘Ele estava com arma escondida nas partes genitais. Por isso, o policial não detectou a pistola na revista. Às vezes, a ação policial é meio tumultuada’’, alegou a delegada-operacional Daisi Dorigo Barão, responsável pelo inquério que apura o caso. A delegada não soube responder como o pedreiro conseguiu sacar a arma se ele estava preso e algemado. ‘‘Eu nem sei se ele estava algemado’’, disse.
Ontem, a delegada esteve na Santa Casa para ouvir o depoimento do pedreiro. Segundo ela, Batista afirmou que foi atingido pelas costas e que não estava armado. Mesmo assim, ele foi autuado por porte ilegal de arma e resistência à prisão. Ele cumpriu pena de dois anos por assalto e estava em liberdade condicional.
‘‘O policial disse que prendeu Batista porque o reconheceu como ex-presidiário e achou que ele pudesse ser fugitivo. Disse que o levou para a delegacia, apenas para averiguar a situação dele’’, disse a delegada. A polícia e o advogado Luiz Eduardo de Souza, que defende o pedreiro, não autorizaram que ele concedesse entrevista à Folha.
A mulher do pedreiro, Marinês Aparecida da Silva, 24 anos, grávida de dois meses, disse que presenciou a prisão do marido e que ele foi preso na porta do restaurante quando voltou ao local para buscar um amigo. ‘‘Enquanto ele foi chamar o amigo dele, eu fiquei na esquina e vi quando revistaram, algemaram e prenderam ele.’’ Marinês também afirmou que o marido não tinha arma. ‘‘Nunca soube que ele tivesse uma arma. A história que a polícia está contando é tudo armação. Agora que eles se deram contam do que fizeram, estão querendo achar um jeito de consertar esta tragédia’’, afirmou.
O médico neurocirurgião Celso Fagundes, que está acompanhando o pedreiro, disse que ele está com uma bala alojada na segunda vértebra lombar e que o estado é irreversível. ‘‘Ele está paraplégico e terá que ser operado para a retirada da bala. Infelizmente não vemos chances de que ele volte a andar’’, afirmou.
A cirurgia para a retirada da bala está marcada para as 13h30 de hoje. O médico também afirmou que o pedreiro não apresentava outras lesões pelo corpo, o que poderia comprovar que ele foi espancado pela polícia. ‘‘Não detectei nenhuma outra lesão’’, afirmou Fagundes.
O episódio que envolve o pedreiro começou na madrugada de sexta-feira num restaurante na área central de Foz. Acompanhado de um amigo, Edilson Augusto, que estaria assediando uma mulher que estava no local, os dois teriam se envolvido numa briga com o policial que também estava em companhia de um amigo. Augusto teve uma perna quebrada durante a briga. Ele também estava internado na Santa Casa, mas já foi liberado.
A Polícia Civil informou que abriu inquérito para apurar se houve ou não excessos por parte do policial. De acordo com delegado-chefe, o caso será encaminhado para a Corregedoria da Polícia Civil do Paraná.
Perseguição A mãe do pedreiro, a zeladora Aparecida Vieira, 39 anos, disse ontem à Folha que toda a família vem sendo ameaçada pela polícia depois que denunciou o caso. ‘‘Sábado, dois policiais arrombaram a casa do meu filho atrás da roupa ensanguentada. Eles viraram a casa inteira. Trabalho à noite e estou com medo de sair na rua. Eu posso ser a próxima vítima.’’
Aparecida afirma que o filho não tinha arma e quer indenização do Estado. ‘‘Vou lutar na Justiça. A polícia tem o direito de prender, mas não de deixar uma pessoa paraplégica. Meu filho é muito jovem para passar o resto da vida numa cadeira de rodas.’’

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