Mesmo estando abaixo do perfil de classe média, a família do oficial de Justiça José Vicente Gonçalves Filho, 40 anos, de Curitiba, mora em duas casas. O motivo não está associado à ostentação, mas ao medo.
A vida do casal virou um inferno desde que Gonçalves Filho e sua mulher, a dona-de-casa Eliane de Lima Gonçalves, 33 anos, denunciaram informalmente – durante a passagem da CPI nacional do narcotráfico por Curitiba, em março – o suposto envolvimento de policiais civis, advogados, promotores de Justiça e até médicos com o desaparecimento de Ewerton, o primogênito de seus quatro filhos.
Na noite de 18 de abril, a casa ‘‘oficial’’ da família foi arrombada. Os invasores quebraram uma janela de vidro na sala e roubaram mais de 15 fitas cassete e de vídeo, dezenas de documentos e fotografias do menino. Era todo o arquivo sobre o desaparecimento de Ewerton, ocorrido há onze anos – em 23 de dezembro de 1988. Deixaram apenas um painel emoldurado, com a reprodução de foto de Ewerton ‘‘envelhecida’’ por recursos de arte gráfica. Num recado macabro, os arrombadores riscaram totalmente o quadro – provavelmente usando uma faca – e o jogaram no chão.
Há cerca de 15 dias, dois homens que ocupavam um Fiat Uno prata sem placas jogaram uma bomba no quintal da casa da família. ‘‘Saí de moto em perseguição e consegui alcançá-los. Um dos homens (descrito com moreno claro, magro e de óculos) disse que, se eu não parasse com as denúncias, iria deixar meus outros filhos órfãos’’, conta Gonçalves Filho que, desde então passou a usar um colete à prova de balas. Mesmo assim, ele não registrou queixa na Polícia Civil. ‘‘Cobra não come cobra’’, justifica.
‘‘Já recebemos mais de 30 ligações telefônicas com ameaças de morte’’, conta Eliane. Para que a família consiga dormir, o oficial de Justiça, que tem residência própria, precisou alugar uma segunda casa. O aluguel custa R$ 250,00. ‘‘Além de viver com medo, estou indo à falência’’, diz. Desde o desaparecimento de Ewerton, ele vendeu dez carros para custear as frustradas buscas do filho.
Desde que começaram as ameaças, o oficial de Justiça é obrigado a levar e buscar pessoalmente na escola os outros três filhos – Cleverton, 13 anos; Emerson, 11, e Anderson, 6. Os meninos também são proibidos de sair à rua sozinhos. ‘‘As mães das outras crianças não querem que seus filhos briquem com os nossos por medo de que eles sofram alguma coisa’’, afirma Eliane.
Ewerton foi raptado aos quatro anos. Um dossiê produzido pela P2 (serviço secreto da Polícia Militar) apontou como responsável pelo crime uma quadrilha com cerca de 30 pessoas, que envolveria até delegados. As crianças sequestradas para o grupo estariam sendo vendidas para adoção ilegal no exterior. Uma cópia desse relatório foi entregue aos deputados da CPI.
Há uma semana, o casal encontrou em uma área desabitada em Almirante Tamandaré (Região Metropolitana de Curitiba) parte dos documentos roubados de sua casa em abril. Quando chegaram, após receber a informação por meio de um telefonema anônimo, os documentos já estavam totalmente queimados. Apesar das ameaças, o casal garante que não vai desistir das buscas ao filho, que hoje estaria com 15 anos.

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