''Por que você fez isso comigo se eu não fiz nada?''. Essa foi a pergunta feita pelo adolescente ferido por um tiro nas costas ao autor do disparo, um policial militar que é seu vizinho no bairro Jardim Riviera, em Cambé (13 km a oeste de Londrina). Tudo aconteceu no final da tarde do último sábado, na presença de várias testemunhas, e a família garante que o adolescente não portava a arma que a equipe envolvida no caso apresentou à Polícia Civil.
Em entrevista exclusiva à Folha, o adolescente contou que tudo aconteceu muito rápido. ''Ele já chegou atirando de dentro da viatura, sem falar nada. Eu estava de costas e não tinha arma nenhuma. Todo mundo que estava na rua teria visto se eu estive armado'', afirmou, por telefone, da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Londrina, onde está internado. O menino está com ferimento grave na coluna e deve passar por cirurgia nos próximos dias. Ontem à tarde, ele foi submetido a exame residuográfico, que detecta vestígios de pólvora nas mãos.
Uma testemunha que não quis se identificar contou à Folha que uma viatura do Pelotão de Choque estaria revistando outros dois rapazes na Rua Manoel Borba Gato, pouco depois das 17h30, quando o adolescente de 16 anos passou de bicicleta. Imediatamente, os PMs teriam entrado na viatura e, ao se aproximaram do menino, o policial disparou de dentro do carro, pelas costas e à curta distância. ''Quando eles viram que não era quem queriam, eles nem acionaram o Siate e jogaram o menino de qualquer jeito no banco da viatura'', relatou a testemunha. Ela garantiu que em nenhum momento o adolescente esboçou sacar uma arma ''porque não estava armado''.
Outros moradores que também testemunharam a ação disseram que eles estariam atrás de um outro adolescente, suspeito de envolvimento em um homicídio registrado há cerca de 30 dias na esquina da rua onde o adolescente baleado mora. ''A Polícia hoje está pior que bandido porque atira em inocente e ainda implanta uma arma'', criticou uma moradora.
O coro de revolta foi ampliado pelo pai do adolescente, o mototaxista Claudinei Garcia, que guardou a jaqueta suja de sangue que o filho usava ao ser ferido. ''Ele não tem passagem pela Polícia e nunca teve arma. Nasceu e cresceu aqui e era conhecido do policial. O que revolta é que além de terem feito uma coisa dessas, ainda querem incriminar ele'', lamentou o pai, que adiantou que vai lutar por justiça. A arma que supostamente seria do filho, segundo Garcia, só apareceu quase três horas depois da ocorrência e com dois projéteis deflagrados.
Ontem pela manhã, Garcia esteve com o relações públicas do 5º Batalhão da PM, tenente Ricardo Eguedis, para saber por que o filho estava sendo vigiado por um policial. À tarde, a delegada do 1º DP de Cambé, Josane Caldardo, entregou ao mototaxista e ao 5º BPM um ofício onde aponta que o menino não foi apreendido em flagrante e, portanto, não havia necessidade de escolta. Mais tarde, a escolta foi dispensada.
Segundo o comandante da Companhia da PM de Cambé, tenente Gustavo Hauenstein, o policial disse que tinha ido atender uma ocorrência de tiros no bairro e que o adolescente estaria armado e feito menção de sacar a arma. Ele afirmou que foi instaurado um inquérito policial militar (IPM), que será acompanhado pelo Ministério Público de Cambé. O tenente informou que policial foi afastado das ruas.

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