Família de jogador morto pede justiça
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sábado, 26 de fevereiro de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Os 60 dias de ausência do jogador de futebol londrinense Raphael Bezerra da Silva, 20 anos, que morreu com 14 tiros durante uma ação policial, estão sendo preenchidos pela família e amigos com o sentimento de justiça, que ontem pela manhã para não deixar que a data caísse no esquecimento reuniu entidades numa manifestação no Calçadão, cobrando a punição dos dois policiais envolvidos.
Filho do ex-jogador, José Carlos da Silva, o Zequinha, que marcou época no Londrina Esporte Clube (LEC), Raphael morava em Portugal e foi baleado no dia 16 de novembro, numa casa do Conjunto Ernani Moura Lima (Zona Leste).
A versão da Polícia Militar (PM) é de que os dois policiais suspeitos do crime, Ediney Ronaldo Gomes e Rangel Barbosa da Cunha, perseguiam o suspeito depois de um assalto, sendo levado um Celta, quando encontraram o jogador, que reagiu à chegada da equipe da Rondas Ostensivas de Natureza Especial (Rone).
Raphael passou por quatro cirurgias, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. De acordo com o Instituto Médico Legal (IML), três tiros atingiram as costas da vítima, 10 o peito e um o boné do jogador.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Centro de Direitos Humanos (CDH), Movimento de Consciência Negra e União Londrinense dos Estudantes Secundaristas (ULES) se uniram aos familiares do jogador na manifestação, exibindo um mural com fotos e informações sobre o caso, chamando a atenção dos que passaram pelo Calçadão.
Para que a morte não caia no esquecimento, os cartazes lembravam que os dois policiais respondem a 13 inquéritos e que, supostamente teriam sumido com as duas camisas de Raphael para dificultar a identificação do número de tiros e a distância dos disparos.
A manifestação não apaga o que ficou com a ausência do jogador na família, que chegou a colocar a casa à venda, mas pretende pressionar a solução do crime, com a prisão dos suspeitos.
Raphael foi inocentado da acusação de roubo. No dia 9, às 9 horas, Zequinha, que já entregou um dossiê do caso ao secretário de Estado de Justiça, Aldo Perzianello, pretende se reunir com o comando da PM em Londrina. A intenção é levar a preocupação com o esclarecimento do crime ao Comando Geral da Polícia, em Curitiba.
''Estamos criando uma força de apoios na cidade. Acreditamos no comando da PM. Vamos levar um ofício ao comando local para depois irmos a Curitiba'', assegurou Zequinha, que aponta as discrepâncias na elucidação do assassinato.
''O laudo do IML não consta a distância em que os tiros foram disparados. Já a Criminalística fez apuração dois dias depois do crime. Não fotografou os tiros no chão e nas paredes'', apontou Zequinha, que colheu assinaturas no Calçadão de apoio à manifestação, pretendendo conquistar o apoio de outras famílias de vítimas de crimes envolvendo policiais. O abaixo-assinado deve circular em todas as regiões da cidade.
Membro do CDH, do Conselho Permanente de Direitos Humanos do Paraná e da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Jorge Custódio Ferreira, lembrou de outros casos em que os suspeitos são policiais. ''Teve um rapaz que morava no jardim Nossa Senhora da Paz, que foi baleado com as mãos para o alto, como se estivesse rendido. A alegação da polícia é de que foi pego por engano. Dificilmente conseguimos acompanhar os casos até o fim'', lamentou Ferreira.
Zequinha disse que pretende fazer um site para o filho morto, atraindo o interesse de Organizações Não-Governamentais (ONGs), que trabalham em defesa da vida.
''A minha vida mudou muito desde a morte de Raphael. A minha filha mais nova teve que ir embora para Lisboa por causa das lembranças da morte do meu filho. Tem 60 dias que ele morreu, mas a gente não esquece. Dá aquele horário que ele ligava, a gente fica esperando todo dia'', concluiu o pai do rapaz, destacando que chegou a ser ameaçado por não querer deixar o crime no esquecimento.


