São Jerônimo da Serra

ReproduçãoSuzana, 11 anos,
foi assassinada
pela ex-mulher
do companheiroA família da índia Suzana Frederico, 11 anos, morta com duas facadas, segunda-feira de manhã na reserva São Jerônimo, em São Jerônimo da Serra (95 quilômetros ao sul de Cornélio Procópio), acusa a Fundação Nacional do Índio - Funai de omissão no caso. Até o final da tarde de ontem, a Funai não havia procurado os familiares para se iformar sobre o crime ou prestar ajuda. A índia Edite Pereira Amaral, 38 anos, autora do crime, ainda não foi apresentada na delegacia local.
‘‘Não estamos entendendo por que até agora a Funai não nos procurou para saber se precisamos de alguma coisa’’, questionou a mãe da vítima, Tereza Frederico. Ela é viúva e mãe de seis filhos. Tereza afirma que a Funai está protegendo a autora do crime e acusa o cacique Nelson Vargas de ter permitido o assassinato. ‘‘Temos duas testemunhas que ouviram Edite falar que o cacique sabia que ela iria matar Suzana e não fez nada para impedir’’, afirma Tereza. ‘‘Isso não vai ficar assim’’.
O motivo do crime teria sido ciúme. Segundo Tereza, a filha Suzana vivia há um ano com Amaral, ex-companheiro de Edite. ‘‘Nós viemos morar aqui em Londrina para vender balaios. Os dois viviam bem como marido e mulher’’, contou a mãe. Ela disse que sexta-feira passada Amaral teve que ir até a reserva em São Jerônimo para resolver uns problemas. ‘‘Suzana quis ir junto porque gostava muito dele’’.
Dorico da Silva‘Queremos justiça’A família de Suzana acampada em Londrina: ‘‘Temos testemunhas que o cacique sabia da ameaça de Edite’’
Quando Edite soube que os dois estavam na reserva, mandou recado pela sobrinha da vítima. ‘‘Ela me disse para avisar Suzana que fosse embora porque senão iria matá-la. Falou também que o cacique estava sabendo disso’’, afirma a índia Graci Frederico, sobrinha de Suzana. Graci conta que, na manhã de segunda-feira, foi ao encontro de Suzana para avisá-la. Quando chegou, Edite e uma irmã tinham acabado de matar a menina. ‘‘A irmã de Edite segurou Suzana pelas costas para que ela desse os golpes de faca’’, acrescentou.
A família da vítima quer justiça, porque acredita que o cacique sabia da possibilidade de ocorrer um assassinato. ‘‘Se até agora o cacique não nos procurou para nada, é porque realmente ele autorizou o crime’’, afirmou Neuza Frederico, irmã de Suzana.
Imediatamente após o assassinato, Edite foi transferida para a reserva Barão de Antonina, onde deveria estar presa na cadeia da aldeia. ‘‘Entre nós, qualquer um que comete crime tem que ficar trancado dentro deste cubículo e depois é mandado para a delegacia da cidade’’, explicou o índio Amadeu Zacaria, ‘‘policial’’ da reserva. Porém, Edite não está presa na aldeia. ‘‘Ficamos esperando a polícia. Como ninguém apareceu, deixamos ela sair para cuidar da filha’’, disse.
O delegado de São Jerônimo da Serra, Ismael Lucas Machado, lembra que toda área indígena, segundo a Constituição, é de tutela da União. A Polícia Civil está esperando que a índia seja apresentada pela Funai e por isso ainda não foi ao local. ‘‘Estamos respeitando as decisões internas da comunidade indígena’’, afirmou o delegado.
Apresentação O administrador Joventino Domingos Aco, da Funai de Londrina, disse que a índia vai ser apresentada ‘‘no momento oportuno’’. O advogado da Funai, Derli Fiuza, de Curitiba, esteve em Londrina anteontem e está tomando providências.
O crime, segundo Aco, dividiu a comunidade. Para ele o maior problema são os índios mestiços. ‘‘É a primeira vez na história destas reservas que acontece um crime como esse. Quando as comunidades são formadas por índios puros não há este tipo de problema’’, alegou.
O administrador garantiu ainda que a família da vítima vai ter toda assistência necessária. A família de Suzana é de origem pura caiangangue.

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