Silvana Leão
De Londrina
A família de Ademir Justino da Silva (conhecido como ‘Doido’) poderá entrar com uma ação indenizatória contra o Estado em função das circunstâncias em que o catador de papel morreu no último sábado, nas dependências da Prisão Provisória de Londrina. Ele foi preso na sexta-feira, depois de confessar ter matado e estuprado a garota Greice Carolina de Melo, de cinco anos, e morreu no dia seguinte pela manhã, após ter sido espancado pelos outros presos.
A decisão definitiva de entrar ou não com a ação será tomada hoje, depois que a família tiver conhecimento do resultado do teste de gravidez feito pela ex-namorada de ‘Doido’, K. C., de 18 anos. Ela viveu com ele durante cinco meses e desconfia estar grávida de um mês e meio. ‘‘Nosso interesse agora não é o dinheiro, mas se ela estiver mesmo esperando um neto meu, vamos ter que criar essa criança’’, afirmou ontem o mecânico Marivaldo Justino da Silva, pai de Ademir.
Silva procurou o Centro de Direitos Humanos de Londrina (CDH) pedindo um encaminhamento para esclarecer a morte do filho. Durante a conversa de quase duas horas que teve com coordenadores do centro, ele demonstrou por várias vezes sua indignação pelo linchamento. ‘‘Meu filho está morto, não tem jeito. Eu confiei na Justiça e me entregaram ele daquele jeito. Mas isso não pode continuar acontecendo.’’
Em entrevista coletiva ao final da reunião, o mecânico relatou que ouviu a notícia de que o corpo da garota havia sido encontrado pelo rádio, junto com o filho, às 13h15 da sexta-feira. ‘‘Às 13h40 encostou o carro da polícia. Eles disseram que precisavam fazer uma averiguação com ele na delegacia. Eu perguntei se podia ir junto, eles disseram que sim e já foram carregando o Ademir, agarrando-o pelas costelas. Enquanto eu entrei para pegar meus documentos eles sumiram. Fui correndo para a delegacia, mas só vi o carro saindo a toda, cantando os pneus.’’
Questionado se acha que o filho foi torturado para confessar o crime, Marivaldo disse apenas: ‘‘Eu não vi o que fizeram com ele no caminho. Mas pela forma que trataram ele lá em casa... Só sei que o Ademir não era mais o mesmo, depois que encontrei de novo com ele’’.
O mecânico lembrou também que logo após ouvir a notícia pelo rádio, chegou a sugerir para o filho que fugisse, caso fosse o culpado. Ademir teria dito, porém, que não tinha culpa nenhuma. ‘‘Onde eu moro já é praticamente zona rural, tem muito mato no fundo. Ele teve muito tempo para se embrenhar lá no meio, e ninguém mais ia achá-lo. Mas não, ele preferiu ficar.’’
Embora todo acusado tenha direito a prestar depoimento na presença do advogado ou de familiares, Ademir da Silva depôs diante apenas da delegada Waldete Testoni, do 2º Distrito Policial (DP) e de outros membros da polícia. O advogado contratado anteriormente pela família, João Ademar Menta, informou ontem que quando chegou ao 2º DP, depois de ser chamado pela família, Ademir já estava prestando depoimento e, conforme informação que recebeu de policiais, já havia confessado o crime.
‘‘Eu então nem acompanhei o depoimento. Em seguida conversei com ele (Ademir) e informei que não teria mais condições de atendê-lo.’’ Segundo o pai de ‘Doido’, o advogado foi contratado por R$ 300,00 e já havia recebido R$ 200,00. Ainda de acordo com Silva, o dinheiro não foi devolvido à família depois que o caso foi abandonado.
Menta explicou à Folha que foi procurado anteontem pelo pai de Ademir para entrar com uma ação contra o Estado. ‘‘Mas hoje (ontem) ele ainda não me procurou para darmos prosseguimento à medida.’’ O advogado disse que esta medida nada tem a ver com o caso da morte da menina, que a princípio está encerrado.

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