Família chega ao fundo do poço mas se recupera
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segunda-feira, 16 de julho de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Sorridente, a mãe curte mais uma gravidez junto aos filhos. Os menores aproveitam as férias escolares para brincar. A dispensa está cheia, a geladeira guarda o último pedaço de bolo do aniversário comemorado um dia antes. O que seria apenas uma cena fofinha de comercial de margarina ganha contornos de milagre quando sabemos que, há pouco mais de um ano, essa mesma família chegou ao fundo do poço. Desejando servir de exemplo a outras mulheres, a londrinense Helena, 35 anos, que na última sexta-feira conseguiu reaver a guarda de quatro filhos, abriu sua história à FOLHA. Todos os nomes foram trocados para preservar as crianças.
A tragédia se instalou muito cedo na vida dessa moradora da Zona Sul de Londrina. Helena tinha apenas um mês de vida quando o pai foi morto pela própria mãe. ''Nunca mais soube dela, ouvi dizer que tem uma zona no Mato Grosso. Minha avó me criou, mas cresci na rua. Tomava banho no Lago Igapó, cheirava cola na Concha Acústica'', conta.
Aos 14 anos, ela foi morar com Jorge, um jovem da mesma idade. Com ele, teve cinco filhos e conheceu drogas mais pesadas. ''Ele estava dormindo fora, deixando faltar as coisas. Perguntei se era outra mulher e ele me apresentou o crack. Comecei a fumar com ele e não saiu mais de casa'', lembra. Os filhos também ficaram cada vez mais reclusos. ''Nós os trancávamos dentro de casa, com medo que acontecesse alguma coisa com eles enquanto estávamos chapados.''
A violência tornou-se rotina. Helena apanhava do marido tentando defender as crianças. ''Perdi um casal de gêmeos ainda na barriga. Tenho marca de facada na cabeça e de uma pancada de cano de revólver que ele me deu no olho'', revela. Ela não conseguiu evitar que o pai usasse as crianças para, ainda que sem entender o que estavam fazendo, ajudar nos crimes que bancavam o vício.
Com seis anos, Bruno (hoje com 10) já acompanhava o pai em assaltos, segurava revólver, treinava tiro e era obrigado pelo pai a molestar as vítimas. A mais velha, Angélica, 18 anos, buscava drogas e armas aos 14. No auge dos homicídios em Londrina, em 2003, Jorge morreu com um tiro no tórax no Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste).
Os problemas não pararam por aí. Sem dinheiro e afundada no vício, Helena começou a se prostituir. Angélica, também dependente do crack, foi junto. ''Eu estava tão chapada que não sentia culpa. Muitas vezes passava freguês para ela (a filha), porque era mais nova e podia ganhar mais dinheiro. Depois, disputávamos cigarro.'' Enquanto isso, as outras quatro crianças passavam fome. Leandro, 11 anos, decidiu sair para pedir esmolas e cuidar de carros. ''Eu tinha vergonha, mas precisava sustentar a gente'', conta.
Foi somente no ano passado, após receber denúncias, que o Conselho Tutelar descobriu o caso e conseguiu na Justiça tirar a guarda dos filhos menores de Helena. Ela foi internada numa clínica de reabilitação de Londrina através do SUS, Angélica teve o tratamento pago pelo Estado em uma entidade de Jacarezinho e as crianças foram para o Lar Anália Franco. Depois de passar quatro anos sem estudar, elas foram matriculadas em escolas.
Helena ficou apenas um mês internada e, ao sair, teve recaídas. A verdadeira ''cura'', diz, veio através do atual companheiro, um tratorista de 50 anos de quem está esperando um bebê. ''Ele me deu carinho, compreensão, me apresentou para gente honesta. Me mostrou que eu não precisava da droga. É disso que eu sempre precisei: um ombro amigo.''
Embora a dona-de-casa garanta estar há um ano livre das drogas, somente agora, depois de nove meses, a Justiça lhe devolveu a guarda das crianças. ''Como existe a possibilidade de recaída, a gente espera um tempo para ver se houve mesmo melhora. Acreditamos que hoje ela está apta'', afirma o presidente do Conselho Tutelar Sul, Luiz Bárbara. Segundo Helena, antigos fornecedores de drogas ficaram tão surpresos com sua reviravolta que ''dizem que não me vendem mais crack, nem que eu implore''.
Por mais difícil que seja acreditar numa reabilitação definitiva, ver Helena cercada pelos filhos e contando sua história com lucidez acende a esperança de que, com força de vontade e uma mão das autoridades competentes, qualquer família pode voltar do inferno. Ironicamente, quatro filhos de outra dependente química da Zona Sul estão, hoje, ocupando as vagas abertas no Anália Franco. A mulher ainda está nas drogas. Helena conclui: ''Se eu consegui sair, ela também pode.''
SERVIÇO
O Conselho Tutelar é responsável por vários tipos de encaminhamento para crianças e familiares em situação de risco. Pode ser procurado pelos próprios envolvidos ou por quem queira denunciar maus-tratos e negligência. Anote os telefones:
- Conselho Tutelar Zona Sul - (43) 3378-0398
- Conselho Tutelar Zona Norte - (43) 3378-0375
- Conselho Tutelar Centro (atende Leste e Oeste) - (43) 3378-0374
- Plantão 24 horas (geral) - (43) 9991-6752


