Família brasileira é privilegiada
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 1997
Valmir Denardin Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaNovo desafioDeisi Kusztra ingressou na UIOF em 1986, depois de sete anos na África desenvolvendo projetos de saúde Uma sorridente curitibana de 46 anos é, desde o início do mês, a principal autoridade em defesa das famílias do mundo. Deisi Noeli Weber Kusztra foi eleita presidente da União Internacional de Organismos Familiares (UIOF), uma agência criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1947, depois da Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de reunificar as famílias que haviam sido separadas.
Hoje, o organismo atua na formulação de projetos e financia programas em todo o mundo - inclusive no Brasil -, em áreas como saúde, educação e habitação. Médica pediatra, Deisi Kusztra ingressou na UIOF em 1986, depois de passar sete anos em países da África, desenvolvendo projetos de sistemas de saúde. Já na agência da ONU, ela atuou em quase uma dezena de países, da Europa, da América do Norte e novamente da África.
No Canadá Deisi conheceu o marido, Edward. Na Líbia (país no norte africano), nasceu sua única filha, Diana, hoje com 17 anos. Em seu trabalho pelo mundo, Deisi aprendeu cinco línguas (inglês, francês, espanhol, árabe e polonês). Até novembro, a médica paranaense ocupava o cargo de presidente para a América Latina para a UIOF.
Folha - Com que conceito de família a agência trabalha? Pai, mãe e filhos?
Deisi Noeli Weber Kusztra - De acordo com a Declaração dos Direitos do Homem, das Nações Unidas, a família é a célula básica da sociedade. Ela se compõe das pessoas que estão compartilhando de uma mesma casa, dos mesmos princípios, do mesmo dia-a-dia. Pode ser mãe, pai e filhos. Pode ser avó e netos. Pode ser mãe e filho. Pode ser pai e filhos...
Folha - A união de homossexuais se inclui nesse conceito?
Deisi - Sim. Eles não deixam também de formar uma família.
Folha - Que tipo de trabalho a UIOF desenvolve?
Deisi - Em 1947, quando a União Internacional foi fundada, o objetivo era reunificar as famílias que estavam separadas pela guerra (a Segunda Guerra Mundial). A partir daí, houve a necessidade de criar um órgão que cuidasse de formular uma política internacional para a área da família. Desde essa época, a União tem procurado seguir as políticas formuladas pelas Nações Unidas e transformar essas políticas em ações na área da família.
Folha - Quais são as ações práticas da agência?
Deisi - Desenvolvemos uma série de projetos com o objetivo de resgatar a dignidade e os valores da família. Não temos um projeto global. A nossa equipe técnica vai ao país, faz um diagnóstico local e vê a necessidade desse local para projetos que desenvolvam a família. Aí formulamos esses projetos. Pode ser na área de habitação, de educação, saúde, geração de renda e no assessoramento aos governos locais na formulação de políticas de desenvolvimento social voltado para a família.
Folha - Como a UIOF atua no patrocínio de ações em defesa da família?
Deisi - Atuamos junto aos governos locais, assessorando a formulação de políticas. Também desenhamos projetos e às vezes financiamos com nossos próprios recursos ou encaminhamos a fontes financiadoras. Nossos recursos vêm da contribuição das instituições e países-membros e financiamentos a fundo perdido de grandes entidades internacionais.
Folha - Quais são os projetos financiados pela UIOF em curso no Brasil?
Deisi - Em Curitiba, financiamos um projeto na área de saúde, dentro do conceito de hospitais distritais. Estamos incentivando os governos locais que distritalizem a saúde, fazendo uma rede básica de centros de saúde para atender a população. Os hospitais distritais são de baixa complexidade, que podem atender 85% dos problemas da população que precisa ser internada, deixando que os hospitais de alta complexidade, como os hospitais universitários, utilizem essas vagas para as pessoas que necessitam de um atendimento de maior complexidade. Não precisamos internar alguém com uma simples pneumonia num hospital universitário. Essa pessoa poderia tirar a vaga de alguém que precisa de um transplante de rim ou um tratamento neurocirúrgico. Já fizemos isso em Curitiba, no Hospital Distrital Comunitário do Bairro Novo. Já estamos com outros dois projetos encaminhados, também na área de saúde, em Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba) e Aracaju (SE). Também temos projetos na área de promoção social, como treinamento de lideranças e de coordenadores das Associações de Proteção à Maternidade e Infância.
Folha - Quanto a UIOF está aplicando nesses projetos no Brasil?
Deisi - Em 97 foram cerca de US$ 6,5 milhões.
Folha - Conhecendo tantos países, o que a senhora acha da povo brasileiro?
Deisi - O povo brasileiro é o mais criativo do mundo. Tudo que precisamos é que a população tenha acesso a esses conceitos e que saiba que não há programa assistencial que vá fazer com que a família seja promovida. As pessoas têm que saber que têm direitos, mas também têm responsabilidades. Temos que mostrar às nossas famílias qual a contribuição que elas podem dar porque somos uma grande nação.


