Família autoriza doação múltipla de órgãos
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quarta-feira, 25 de junho de 2008
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
O momento era de dor, mas ainda assim a solidariedade prevaleceu. Depois de constatada a morte encefálica de Genice Ribeiro Fraiz, os familiares, que são de Ribeirão do Pinhal (Norte), optaram por doar os órgãos, caso raro na rotina dos hospitais brasileiros. Internada no Hospital Evangélico no último domingo, com uma crise hipertensiva, Genice sofreu um aneurisma. Seu cérebro não resistiu ao sangramento e ela faleceu na noite de anteontem, aos 55 anos. Ainda pela madrugada, as equipes médicas trabalharam na retirada dos órgãos. Como a decisão da família foi rápida, puderam ser aproveitados rins, baço, ossos, córnea e válvulas cardíacas.
Como o coração ainda bate, respondendo apenas a contrações próprias, a morte encefálica é difícil de ser aceita pelas famílias, como afirmou a enfermeira Shirley Conceição Rezende, coordenadora da comissão intra-hospitalar de doação de órgãos do Evangélico. ''Familiares não entendem a diferença entre morte e coma'', disse.
Segundo Shirley, existe um protocolo para que seja declarada morte encefálica, o qual engloba exames clínicos e complementares. Quando ocorre a morte cerebral, o paciente pode doar praticamente todos os órgãos.
A enfermeira contou que no dia da morte de Genice, os próprios familiares decidiram pela doação. ''Foi uma atitude muito nobre. Quando iniciamos os exames para diagnosticar a morte encefálica, a família já estava disposta a doar. Um dos familiares até justificou o ato dizendo que ela passaria a viver em outra pessoa'', recordou Shirley.
Conforme ela, quando a morte é por parada cardíaca, diminui a possibilidade de doação múltipla de órgãos. Nesses casos, são aproveitados córnea, ossos e válvulas cardíacas. ''Quando se fecha o diagnóstico de morte, a família é comunicada e se fala sobre a doação com o responsável pelo paciente'', explicou a enfermeira, reforçando que na maioria dos casos é o hospital que aborda a família.
''Assim que a doação é autorizada, o hospital entra em contato com a Central de Transplantes, que é responsável por contatar as equipes de retirada e transplante de órgãos'', completou Shirley, apontando que o procedimento cirúrgico deve ser rápido para garantir a funcionalidade do órgão. O transplante de um coração, por exemplo, deve ser feito em até quatro horas após ser retirado do corpo do doador. ''Mas ainda assim é preciso respeitar o tempo de aceitação da família'', opinou.
Este foi o primeiro caso de doação múltipla de órgãos no Evangélico este ano. No ano passado, lembrou Shirley, cinco famílias decidiram doar após morte encefálica dos parentes. A decisão, na maioria das vezes, envolve famílias que já discutiram o assunto previamente. ''A aceitação depende de conversa familiar em casa, quando se discute a vontade de ser ou não doador.''


