Flávia Bussolo, enfermeira do Hospital Infantil: "Vamos tirando as dúvidas da família, oferecendo um atendimento humanizado"
Flávia Bussolo, enfermeira do Hospital Infantil: "Vamos tirando as dúvidas da família, oferecendo um atendimento humanizado" | Foto: Ricardo Chicarelli



A doação de órgãos oferece esperança para quem vive um momento de dor. Mesmo assim, ainda é grande a resistência de muitos familiares na hora de autorizar o gesto, o que se torna mais difícil quando o doador é uma criança. Outro fator desafiador com relação às crianças é o número de doadores frente aos que necessitam do transplante, que é baixo se comparado com os adultos. Isso acontece em virtude dos diagnósticos que levam ao óbito.

"As causas relacionadas a Acidente Vascular Cerebral (AVC) e traumatismo craniano têm pouca incidência entre as crianças. Outro fato é que não entendemos a morte de uma criança como algo natural. Isso causa uma situação emocional nas famílias. Uma terceira barreira é a dificuldade de aceitação, pois os pais precisam efetivamente entender que a morte encefálica é como qualquer outra morte", elenca a chefe da Central de Transplantes da Regional Norte, Ogle Beatriz Bacchi de Souza.

Em Londrina, o último caso de doação aconteceu domingo (4), quando os órgãos de um garoto de quatro anos, que teve morte encefálica após sofrer um acidente automobilístico no Norte do Estado, foram captados no Hospital Infantil Sagrada Família. A solidariedade dos pais, que autorizaram o procedimento, salvou a vida de quatro crianças. Enquanto os rins foram para Curitiba, o coração foi para São Paulo e o fígado para o Rio de Janeiro. Além disso, os globos oculares seguiram para o Banco de Olhos de Londrina e devem beneficiar mais duas pessoas.

Esta é a terceira vez que o procedimento é realizado nos últimos dez anos na cidade e todos pelo Hospital Infantil. O primeiro aconteceu em 2012 e depois em janeiro de 2016. Na época, a família de uma criança vítima de afogamento autorizou a retirada dos rins e globo ocular. Além destes casos, a instituição registrou um transplante de coração em 2015, no qual uma menina recebeu o órgão, que veio de Santa Catarina.

Imagem ilustrativa da imagem Família autoriza doação de órgãos de menino de quatro anos



Segundo Flávia Bussolo, enfermeira da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) do Hospital Infantil, o convívio com as famílias durante o período de tratamento da criança ajuda no momento que precisa ser falado sobre a doação. "Mostramos para a família a possibilidade de ajudar outras pessoas através da doação de órgãos. Vemos se eles já ouviram falar, se têm ideia de como funciona e vamos tirando as dúvidas deles, oferecendo um atendimento humanizado", explicou. Psicólogo, assistente social e neurocirurgião também ajudam durante esta conversa.

Por se tratar de crianças, a questão da logística afeta diretamente no tempo que o corpo terá que ficar no hospital após constado o óbito, o que também dificulta a autorização. "Tem toda a questão da logística, que demora, e têm famílias que não entendem. Sempre explicamos que por ser criança é mais difícil. Quando acontece, precisamos ver a questão de aeronave, ambulância e se vai precisar abrir trânsito, entre outros fatores. Nem sempre quem precisa é da região", afirma Bussolo.

Dados da Secretaria Estadual de Saúde mostram que o Paraná tinha até abril de 2017 41 pacientes pediátricos na fila de espera por órgãos, sendo 40 em busca de rim e um de coração. Em 2016, oito ingressaram na estatística de mortalidade no Estado. "Estamos fazendo uma transformação histórica, mas com muitos desafios pela frente, como o acolhimento das famílias. Estamos trabalhando isto com os profissionais de saúde", frisou Bacchi.

A chefe da Central de Transplantes da Regional Norte ainda pontua que várias medidas vêm sendo tomadas ao longo dos anos para facilitar a doação de órgãos entre crianças. Uma delas é o sistema de transplantes, que todos os hospitais precisam informar quando o ocorre a morte encefálica de um menor de idade.

705 crianças ingressaram na lista de espera no Brasil

A população pediátrica no Brasil é de, aproximadamente, 53 milhões, segundo dados do IBGE.
Segundo informações da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em 2016, 705 crianças ingressaram em lista para realizar transplantes de órgãos sólidos no Brasil. Foram
transplantadas 527 (75%), número que se mantém nos últimos anos. Infelizmente, 78 crianças que estavam na lista de espera faleceram.

O número de transplantes renais pediátricos tem apresentado variações a cada ano. Em 2014, foi 13,3% superior a 2013. Em 2015, caiu em 5% em relação a 2014. Em 2016, foram realizados 310, uma pequena queda de 2% em relação a 2015. A maioria, 285 (92%) foi com doador falecido. Ao mesmo tempo, ingressaram na lista de espera 380 crianças, sendo que 310 foram
transplantadas. Do total da lista, 3% faleceram.

Com relação aos transplantes hepáticos, houve um pequeno aumento: foram realizados 177 em 2015 e 180 em 2016. "Interessante observar que nos últimos anos houve aumento progressivo no número de transplantes intervivos, que há quatro anos consecutivos superam, em número, os transplantes com doador falecido, cada vez menos utilizado (30% do total)", relata Clotilde Garcia, coordenadora do departamento de Transplante Pediátrico da ABTO.

Ainda de acordo com números divulgados pela entidade, em 2016 ingressaram na lista de espera para coração 69 crianças. Foram transplantadas 32 (46%) e 19 (34%) faleceram. "O que chama a atenção nos dados deste registro e a comparação com os dados de anos anteriores é que são transplantadas 74% das crianças que ingressaram em lista. Mais uma vez, há necessidade de trabalhar na facilitação para as crianças portadoras de falha de órgãos vitais ao chegar aos centros de transplante e, sempre, na educação para a doação de órgãos."

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