Dimitri do Valle
De Curitiba
A família do aposentado João Avanci Filho, 69 anos, está reunindo documentos para processar o Hospital Cajuru, em Curitiba, por negligência médica e danos morais. O motivo é uma controversa transfusão sanguínea que pode ter provocado a morte do aposentado no dia 30 de maio deste ano. Segundo familiares, João deveria ter recebido sangue ‘‘O positivo’’ após uma cirurgia cardíaca. No entanto, João Avanci recebeu sangue ‘‘A positivo’’ que seria indicado para outro paciente, Antônio Palkoski, que também morreu.
De acordo com a analista de processo Célia Regina Avanci Ribeiro, 44 anos, filha de João Avanci, funcionários do hospital chegaram a aquecer o corpo do paciente, que aparentava estar morto, na tentativa de convencer os familiares de que João permanecia com vida.
Um dos irmãos de Célia foi aconselhado a gritar no ouvido do seu pai para constatar que ele tinha melhorado. O filho foi informado que João estava ‘‘sedado e em coma induzido’’. ‘‘Meu irmão achou aquilo ridículo, como ele escutaria a sua voz?’’, indaga Célia.
Célia acusa o enfermeiro Leonardo Enzo de ter trocado as bolsas contendo o sangue do aposentado João Avanci Filho e de Antônio Palkoski. A filha de Avanci diz que a descoberta da transfusão equivocada foi feita pela mulher do paciente, Marilene da Aparecida de Oliveira Avanci. Ela viu o nome ‘‘Palkoski’’ registrado na bolsa de sangue ‘‘A positivo’’, que foi ministrado para o marido.
Outro elemento que pode comprovar que João Avanci recebeu o tipo sanguíneo errado está na declaração de óbito do paciente. Assinado pelo médico José Luis Cossio, o documento informa que o aposentado sofreu uma ‘‘reação transfusional’’. Na área médica, esta explicação é usada para classificar a morte de um paciente que recebeu sangue não compatível.
O advogado Beno Brandão, que está assessorando a família do aposentado, diz que até agora somente os familiares do morto foram ouvidos no inquérito policial instaurado na Delegacia de Homicídios para apurar o caso. Ele ressalta que os médicos e funcionários que assistiram João Avanci ainda não prestaram depoimento.
A família Avanci também encontrou dificuldades para entender o resultado do laudo de necropsia feito pelo Instituto Médico Legal (IML). O laudo do IML, que demorou quase 60 dias para ficar pronto, não é conclusivo. Beno disse que a alegação dada para explicar a demora era de que o prontuário médico de João Avanci não havia sido emitido pelo Hospital Cajuru. Sobre a possível ocorrência de troca de sangue no paciente, os médicos legistas Carlos Alberto Siega e Suzane Kolb optaram por mencionar no documento que a informação foi relatada pelos familiares de João Avanci.
O advogado Beno Brandão diz que os legistas deveriam ter olhado a própria declaração de óbito. A explicação dos médicos no laudo de necropsia é a seguinte: ‘‘os peritos, contudo não têm como provar que isto realmente aconteceu em virtude de não terem sido identificadas hemáceas que não as do tipo ‘‘O’’ no sangue. Isto, porém, não descarta a transfusão de sangue ABO incompatível, vez que estas hemáceas podem ser rapidamente destruídas quando infundidas na corrente sanguínea’’.A acusação é contra o Hospital Cajuru, que teria trocado o tipo de sangue numa transfusão e causado a morte do paciente
Mauro FrassonJustiçaCélia Regina Avanci Ribeiro, 44 anos, filha de João Avanci (no destaque), reúne documentos para processar o hospital

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