A história do guardião do palacete se confunde com a história dos negócios da família Matarazzo. Como costureiro profissional, Rosário Papa entrou para o grupo em 1960, ainda em São Paulo. ''Em 1966 vim para Jaguariaíva, como encarregado de uma das maiores confecções do Brasil na época. Fabricávamos 600 camisas por dia ou então 150 macacões ou conjunto de calça e blusa somente para os funcionários das empresas'', afirma.
Papa chegou a residir em uma casa nos fundos do palacete por vários anos, a partir de 1981. Mudou-se na década de 1990 até retornar em 2002, quando foi convidado à trabalhar como guia, recebendo visitantes.
''Isso aqui é praticamente minha vida e, enquanto Deus permitir prestar este serviço e puder zelar pelo patrimônio, vou continuar fazendo isso com muito orgulho. Graças à esta empresa, consegui formar uma família e criar todos os meus três filhos, que hoje estão encaminhados cada um em suas profissões. Por isso tudo, exerço essa função com muito carinho e amor e ninguém imagina minha satisfação quando recebo pessoas que dão valor pelo trabalho que faço'', emociona-se o guardião.
Mortes e assombrações
Durante a grande estiagem que castigou o Paraná em setembro de 1963 - quando o Estado passou cinco meses sem chuvas - uma tragédia se abateu em uma fazenda dos Matarazzo nas proximidades do Rio do Peixe e Rio das Cinzas. Um gigantesco incêndio dizimou plantações de pinheiros e oliveiras e matou 23 trabalhadores. Segundo Papa, o grupo viajava em um caminhão para combater o fogo mas o veículo tombou e foi cercado pelas chamas.
Nesta época, entretanto, o palacete Matarazzo ainda não tinha a fama de mal assombrado. As supostas aparições ou visões de funcionários e visitantes só começaram a ser relatadas recentemente. Papa garante que nunca viu nada mas admite que, vez ou outra, ''sente uns arrepios e ouve uns barulhos estranhos''. Mas ele revela que a esposa, Aparecida Papa, garante que já viu ''coisas estranhas dentro do palacete''.
O guardião conta que há uns cinco anos, quando o Departamento de Educação funcionava no prédio, um adolescente de 12 anos chegou acompanhado pelo pai para retirar um uniforme de uma escolinha de futebol. ''Ele diz que chegou na porta e havia um enterro. Um homem vestido de preto, que chorava muito, pediu para que voltasse no dia seguinte porque ninguém seria atendido. Ele retornou e a responsável pelo material perguntou por que não tinha vindo no dia marcado. Quando contou a história, todos ficaram temorosos porque o pai do menino confirmou tudo.''
Um funcionário chegou a pedir demissão porque numa madrugada teria visto um lençol voando dentro do casarão. Papa detalha: ''o rapaz bateu na minha janela de madrugada, chorando e pedindo para ir embora. Expliquei que não poderia mandá-lo embora por este motivo e o troquei de turno com outro funcionário até passar o trauma''.
Museu
O palacete e boa parte dos 1,2 mil alqueires que pertenciam ao Grupo Matarazzo foram vendidos em 1978. No final da década de 1990, depois de pertencer a outros donos e abrigar até um hotel, o imóvel foi repassado à Prefeitura de Jaguariaíva, que pretende instalar no local o Museu Histórico Municipal Conde Francisco Matarazzo.
Neto de tropeiros, o diretor do Departamento de Cultura de Jaguariaíva, João Antônio Santos Lima, diz que a idéia é resgatar os quase 185 anos de história de Jaguariaíva, valorizando o garimpo de esmeralda e ouro, o tropeirismo, a chegada da estrada de ferro, o grupo Matarazzo e as muitas famílias que ajudaram a erguer a cidade.
Conforme Lima, juntamente com a lei que criou o Museu foi instituída outra que criou o Conselho Municipal de Cultura, que vai gerir os recursos e planejar eventos culturais e artísticos. Para abrigar o Museu, no entanto, o prédio terá que passar por reforma e adaptação. O projeto já foi feito e a previsão de custos é de R$ 600 mil. (L.A.)

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