Foi-se o tempo em que a sala de aula era o templo maior da aquisição de conhecimento. Hoje se aprende de várias formas, inclusive virtualmente, à distância, sem a necessidade obrigatória do espaço físico encerrado em quatro paredes onde repousam cadeiras e um quadro negro. Manter o interesse pelo aprendizado com todos os envolvidos enclausurados em um ambiente fechado é tarefa titânica, que parece ficar ainda mais penosa quando se trata de turmas do ensino superior.
Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), por exemplo, são quase 20 mil estudantes em cursos de graduação e pós-graduação e mais 1636 docentes (sendo 285 temporários). A qualquer hora, basta andar pelos largos corredores dos diversos centros de ensino para flagrar alunos vagando fora das salas nas mais diversas atividades, não necessariamente acadêmicas: namorando, jogando conversa fora com colegas, falando ao telefone celular, com os ouvidos colados em MP3 e iPods, indo e voltando da sala de xeróx, do laboratório de informática, da biblioteca, da lanchonete...
Entre o professorado, faltas ou ausências também acontecem por situações diversas como congressos científicos, reuniões, imprevistos familiares. Mas alguns usam do artifício de dar uma pequena parte da aula em sala e liberar a turma no restante do tempo para ''atividades extra-classe''. Existem ainda problemas mais sérios, como a falta temporária de professores para lecionar determinadas disciplinas.
O detalhe é que a frequência em sala, assim como o desempenho nas disciplinas, é um dos requisitos principais para o aluno ser aprovado ou não. Na UEL, todos os estudantes precisam ter uma assiduidade mínima de 75% para concluir cada disciplina.
Filósofo e docente na UEL, José Mário Angeli disparou: ''Atualmente, nem 10 professores Antônio Cândido (um dos maiores intelectuais do País) conseguiriam manter o aluno em sala de aula todo o tempo porque o conteúdo das disciplinas está muito distante do interesse dos estudantes. A sociedade está marcada por um processo de desestruturação, flexibilização e fragmentação que está levando os alunos a procurarem novas formas de adaptação''.
Segundo o professor, ''este drama da modernidade'' ocorre justamente porque não se descobriu ainda como desarmar a armadilha. ''O jovem hoje não tem outras opções além daquelas da sala de aula, que são contrárias à sua liberdade'', analisou. Uma das saídas, especulou Angeli, pode estar na capacidade de articular consensos ''para que o aluno possa passar pela faculdade e dizer ao final que valeu a pena ter aula com o professor José Mário''.
Pelo lado dos docentes, Angeli afirmou que o cenário é semelhante, ''porque ele também é fruto dessa mesma sociedade''. ''A relação de mercado parece suficiente para resolver os problemas. Isso, no entanto, não exime a responsabilidade do professor porque ele está numa universidade pública'', provocou.
Titular da cadeira de Prática de Ensino e coordenadora de estágio do curso de Letras, a docente Elaine Mateus, ponderou que o grande desafio do professor é justamente manter o interesse da turma pelo conteúdo sem ter que forçar ninguém a permanecer em sala. ''A motivação tem que estar no aprendizado e quando o espaço da sala de aula é democrático a presença ou não não é tão relevante'', destacou.
Para Elaine, tanto os alunos quanto os colegas de profissão têm responsabilidades fundamentais que carecem de assiduidade, respeito e compromisso para serem efetivadas. ''Como professora, eu não estou ensinando conteúdo. Estou formando profissionais'', observou, completando que o pensamento vale também para os universitários: é preciso pensar antes de tudo na formação profissional.

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