Quando a reportagem da FOLHA visitou o Caps III, funcionários deparavam-se mais uma vez com um problema crônico. Perto das 15 horas, chegava a informação de que o único hospital psiquiátrico de Londrina que atende pelo SUS não dispunha de mais vagas para internações. Os 260 leitos do Hospital Psiquiátrico Shangri-lá estavam ocupados e no Caps - que conta com seis leitos - mais dois pacientes necessitavam de internação naquele mesmo dia. O quadro local reflete uma situação que se reproduz nacionalmente, criando problemas para os pacientes, seus familiares e profissionais da saúde.
A psiquiatra Maria Angélica Gambarini diz que a situação é comum, o que não significa que seja aceitável. Ela afirma que os Caps representam avanço, mas houve a inversão de um processo: ''Antes que desativassem leitos psiquiátricos, era necessário fortalecer uma rede alternativa de saúde para dar conta da demanda da população'', enfatiza.
Quando o doente precisa ser internado e não há vagas, ela diz ser comum o atendimento em pronto-socorro, onde são ministrados medicamentos para conter as crises e, quando o paciente melhora, volta para casa.
''A situação gera medo e insegurança na própria família. Além de todos os riscos envolvendo a saúde e a integridade física do paciente, vêm à tona a carga de preconceito e o estigma relacionados a doença mental. Numa situação dessas, as famílias se sentem impotentes. Pelo seu tamanho, Londrina precisaria, pelo menos, de cinco Caps.''
Se o avanço da indústria farmacêutica, nas últimas décadas, contribuiu para a minimização do sofrimento e a regressão dos quadros de doenças mentais, na rede pública os profissionais muitas vezes se deparam com outro problema grave: a falta de remédios. A medicação correta é fundamental para a melhora do paciente. A psiquiatra explica que os transtornos mentais são uma alteração orgânica que gera um desequilíbrio bioquímico no cérebro. ''Assim como os diabéticos ou os hipertensos precisam de medicação constante, os doentes mentais também precisam.''
Entre as doenças mais comuns que necessitam de tratamento psiquiátrico, a médica cita a depressão, o transtorno bipolar, a síndrome do pânico e a esquizofrenia. Segundo ela, o aumento crescente desses casos tem uma explicação: o altíssimo nível de estresse a que as pessoas são submetidas.
Ainda assim, ela aposta em dias melhores acreditando que as mudanças trazidas pela nova legislação no Brasil também abrem espaço para a criação de uma nova realidade, onde os doentes mentais são tratados de forma mais humana. A reinserção comunitária dessas pessoas no lugar do isolamento em hospitais é parte da solução para derrubar o estigma do medo e do preconceito. Afinal, como escreveu Robson, que apresenta sintomas de esquizofrenia: ''Loucos nós somos. Mas é normal.'' A frase cabe direitinho em nossos dias. (C.M.)
Serviço
Informações no blog da Associação Londrinense de Saúde Mental www.alsaudemental.blogspot.com

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