Paulo Sérgio, 6 anos, tem diabetes tipo 1 e precisa de aplicações de insulina diárias e controle rigoroso dos índices glicêmicos para manter a saúde. Sem saber relatar à mãe, Michele Barozi Porto de Oliveira, os sintomas exatos que indicam excesso de glicose ou hipoglicemia, o garoto necessita ser submetido a pelo menos seis testes de glicemia diários.
A família, porém, não tem conseguido retirar as 100 fitas para o exame a que tem direito mensalmente na 17 Regional de Saúde, em Londrina. Como consequência, Michele enfrenta dificuldades para manter a doença do filho sob controle.
''Por ele ser criança e não saber relatar os sintomas, tenho que fazer a medição frequente para decidir as providências a tomar. De manhã, por exemplo, se o índice está alto, tenho que aplicar uma medicação diferente da usual'', contou ela, acrescentando que o filho enfrentou episódios de muito mal-estar por causa da falta de exames. ''Se ele tem hipoglicemia e a gente não percebe, corre risco até de entrar em coma diabético.''
Cada caixa com 25 fitas, de acordo com a dona de casa, custa R$ 54,00. ''Nem sempre a gente tem dinheiro para comprar o que falta'', lamentou. A dificuldade para retirar o produto na 17 Regional já dura dois meses. ''Reclamamos e até entramos em contato com a ouvidoria, em Curitiba, mas ainda não obtivemos resposta.''
A mãe de uma moça diabética de 20 anos que não quis se identificar também relatou à FOLHA que, eventualmente, enfrenta dificuldades para conseguir as fitas. ''As 100 fitas fornecidas pela Regional já são insuficientes, porque minha filha faz o exame no mínimo cinco vezes por dia. Tem meses que a gente nem consegue pegar a quantidade a que temos direito'', relatou.
Ela afirmou que, em muitas ocasiões, pega uma parte das fitas e passa o resto do mês telefonando para confirmar se o restante está disponível. ''Causa transtorno e despesas'', resumiu.
Fundo imunológico
O endocrinologista Guilherme Marquezini informou que a diabetes tipo 1 acomete principalmente crianças e jovens e, ao contrário da tipo 2, não tem causas genéticas ou relacionadas ao estilo de vida, como obesidade e sedentarismo. ''A Diabetes Tipo 1 é uma doença de fundo imunológico causada pela destruição das células produtoras de insulina'', explicou.
Segundo o médico, a patologia aparece subitamente e é praticamente impossível de prevenir. ''De uma hora para outra o paciente passa a ser dependente da insulina.'' O tratamento, portanto, é baseado nas várias aplicações diárias do produto.
''Para descobrir a quantidade das doses a serem aplicadas, é preciso saber exatamente a taxa de glicose naquele momento. O exame antes da aplicação é fundamental, por isso os pacientes precisam de tantas fitas de medição'', acrescentou, lembrando que os índices de glicose variam de acordo com o horário, o tipo de alimentação, as atividades físicas praticadas e, nas adolescentes, dependem também do ciclo menstrual.
Quando o paciente não tem condições de fazer o exame, as consequências podem ser trágicas. Dose excessivas de insulina muitas vezes levam ao coma por hipoglicemia (baixo índice de glicose no sangue). Já as doses insuficentes, quando recorrentes, aumentam o índice de açúcar e podem até provocar risco de morte.
Marquezine ressaltou que as 100 fitas oferecidas mensalmente pelo Estado são insuficientes para o tratamento adequado, que inclui uma média de seis exames diários. Segundo ele, os pacientes diabéticos gastam R$ 500 por mês, em média, adquirindo medicamentos e equipamentos nas farmácias convencionais. ''Para o Estado, esse custo deve ser menor'', ponderou. O valor, para o médico, é baixo diante das consequências que a doença pode trazer.
''O paciente que não se trata adequadamente fica com o sistema circulatório comprometido'', disse. Os problemas podem se manifestar em vários órgãos, causando cegueira, paralisação dos rins, infarto e derrame, entre outros exemplos. ''O tratamento vai acabar ficando mais caro'', comparou.
Além disso, como a doença acomete jovens, outro ônus é a perda de cidadãos economicamente ativos que, por causa de uma doença possível de ser controlada, acabam tornando-se portadores de necessidades especiais.
Como a diabetes tipo 1 aparece drasticamente, muitas vezes é descoberta após uma internação no hospital. Os sintomas mais comuns, conforme o endocrinologista, são sede além do normal, excesso de urina e rápido emagrecimento.
A reportagem da FOLHA tentou contato com a 17 Regional de Saúde, mas não obteve retorno das ligações.

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