Um ano depois de a Vara da Infância e Juventude impetrar ação civil pública contra o município devido à falta de vagas nas creches de Londrina, o problema persiste, praticamente, nas mesmas proporções. Diariamente, o Conselho Tutelar atende mães que não sabem onde deixar seus filhos. Segundo o presidente do conselho, Júlio Botelho, o déficit ainda é o mesmo de um ano atrás, levantado em pesquisa realizada pelo Conselho e a Universidade Estadual de Londrina: 12 mil vagas. Hoje o município tem 70 creches, com uma média de 100 vagas cada uma.
Sem lugar para deixar seus filhos menores de sete anos, muitas mulheres deixam de procurar emprego, ou acabam pedindo demissão para ficar em casa cuidando das crianças. Aquelas que não podem ficar sem trabalhar, sob pena de não ter renda nenhuma, apelam para a solidariedade de vizinhos, ou deixam os filhos menores sob cuidados dos filhos mais velhos.
Veridiane Rodrigues de Brito, 28 anos, moradora do assentamento São Jorge, zona norte de Londrina, pediu demissão da casa na qual trabalhava como doméstica para cuidar dos filhos Gilberto, 5 anos, e Mateus, 2 anos. ‘‘Estamos sobrevivendo com o dinheiro que meu companheiro consegue fazendo bicos, mas é muito difícil’’, afirma. Ela ganhava R$ 100,00 mensais.
Ednéia Aparecida Matias há dois meses cuida de Alison, 1 ano e meio, para que sua vizinha, Eva, possa trabalhar. Ambas moram no assentamento São Jorge. Eva, segundo sua vizinha, conseguiu o emprego antes de conseguir a vaga para seu filho. ‘‘Para não perder o trabalho, ela pediu para eu cuidar do beb꒒, conta Ednéia Matias.
O problema foi denunciado há exatamente um ano pela Folha. Na época a promotoria da Infância e Juventude impetrou uma ação civil pública contra o município. Uma liminar concedida pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Dimas Ortêncio de Melo, determinou na ocasião que o município criasse, em 60 dias, 500 novas vagas em creches.
Segundo o promotor Tiago de Oliveira Gerardi, a liminar foi cumprida e o município criou 556 vagas. Agora, segundo ele, falta o cumprimento do pedido principal do processo: que o município ofereça uma vaga para cada criança com idade entre 0 e seis anos, cujas famílias tenham renda mensal inferior a dois salários mínimos.
Na época, foi determinado o prazo de um ano para que o município atendesse à demanda, sob a pena de pagar multa diária de R$ 1 mil. Segundo o promotor Tiago Gerardi, por enquanto a cobrança da multa não será efetuada. Ele alega que, neste caso, a população sai perdendo se o município tiver que pagar a multa, já que continuará sem creche e o dinheiro sai da própria população.
Na próxima sexta-feira será realizada uma audiência para tentar um termo de compromisso entre o município e o Ministério Público. A tentativa, segundo o promotor, é de fazer com que o município se comprometa a garantir uma vaga para cada criança num prazo ainda não estabelecido.
O Conselho Tutelar fez um levantamento parcial, anexado ao processo, no qual mostra as necessidades de cada região da cidade: norte, 449; sul, 583; leste, 505; oeste, 338; centro: 421. No distrito de Guaravera, 32 crianças estão sem creche e na zona rural, 35.
O presidente do Conselho Tutelar afirma, porém, que para garantir o direito de todas as crianças é preciso construir 120 creches com capacidade para atender a 100 crianças. As situações mais graves, segundo ele, estão nas regiões norte e sul. Por enquanto, o município, através das secretarias de Ação Social e Educação, está estudando uma forma de conseguir recursos para atender à demanda.

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