Falta vontade política para resolver
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de maio de 1999
Dimitri do Valle 
A médica carioca Sarah Escorel disse ontem em Curitiba que falta vontade política do governo federal para apresentar um programa que combata a crise no sistema público de saúde. Considerada uma das maiores autoridades na América Latina em medicina sanitária, Sarah fez ontem à noite na Universidade Federal do Paraná (UFPR) o lançamento nacional do seu livro Reviravolta na Saúde - origem e articulação do movimento sanitário.
Sarah relata no texto o engajamento de poucos profissionais da área que lutavam para defender mudanças no então Sistema Nacional de Saúde (SNS). A médica não deixa de lembrar as perseguições, feitas pelo Sistema Nacional de Informações (SNI), de quem ousava desafiar os generais de plantão. Uma das muitas curiosidades do livro é a revelação de que no final dos anos 60 e início dos 70 os gabinetes da ditadura não concordavam com a chamada medicina preventiva, que hoje em dia faz parte da cartilha de qualquer profissional da área.
A obra de Sarah não é apenas uma sisuda defesa de tese acadêmica de mestrado recheada de termos técnicos e incompreensíveis para os leigos. Ela relata os acontecimentos políticos da gestão do presidente Ernesto Geisel, que iniciou uma abertura lenta e gradual, mas não deixa de inserir neste contexto o começo de várias discussões envolvendo cientistas, médicos e estudantes na defesa de novas políticas de saúde
O movimento teve o seu ápice na VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986. Pela primeira vez, mais de cinco mil representantes de todos os segmentos da sociedade civil discutiram um novo modelo de saúde para o Brasil. O resultado veio dois anos depois: a Constituição determinava que a Saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado. Apesar de contar uma parte da luta para mudar conceitos conservadores, Sarah Escorel acredita que ainda há muito por fazer.
Para ela, um dos avanços do setor foi a criação dos conselhos municipais de saúde. Os conselhos são integrados por gente da comunidade que pode discutir com técnicos e profissionais a melhor maneira de empregar os recursos. O conhecimento existe, mas é preciso exigir que os governantes destinem recursos e façam valer a prática de determinados programas de saúde, observa.


