Falta de vontade política emperra a reforma agrária
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 1997
Edmara Michetti 
Dorico da SilvaEsclarecimentosDiscussão na Câmara foi motivada pelo anúncio de um acampamento-gigante de sem-terra na regiãoO encontro para esclarecer dúvidas sobre o processo da reforma agrária no Paraná movimentou a Câmara de Vereadores ontem à tarde.
A superintendente regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Maria de Oliveira, expôs um panorama geral da situação no Estado, afirmando que o principal obstáculo para a agilização da reforma agrária é a falta de vontade política. Isso é gravíssimo, porque é da vontade política que surgem todas as decisões, afirmou. Quando precisa votar uma lei para facilitar, para que alguma coisa dê certo, passa um mês, um ano, dois anos e nada é feito porque o voto nunca é pelo bem mas pela troca.
Dorico da SilvaMaria de Oliveira, do Incra
A discussão durou cerca de três horas e teve a participação do coordenador regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST), Josmar Choptian, e Luiz Roberto Neme, representando a Sociedade Rural do Paraná. Os esclarecimentos foram ouvidos por proprietários rurais da região de Londrina e representantes das Câmaras de Vereadores de Maringá, Ibiporã, Jataizinho, Tamarana e Cambé e Polícia Militar.
A reunião foi motivada pelo anúncio, feito pelo MST, da formação de um grande acampamento com 5 mil famílias na região de Londrina. Choptian disse que o local mais provável para o acampamento é a fazenda Serraria, em Tamarana. A área de 165 hectares foi desapropriada para assentamento em 1987. Hoje, 23 famílias estão assentadas no local, já dividido em lotes. Segundo Choptian, o novo acampamento vai ocupar uma área social do assentamento.
O líder regional dos sem-terra garantiu aos participantes do encontro que o movimento não montará o acampamento em terras particulares. Em momento algum dissemos que vamos ocupar terra produtiva ou improdutiva, de caloteiro ou não, disse. Não há motivo para se preocupar com uma guerrilha armada, isso não vai acontecer.
Dorico da SilvaNeme, representante da Rural
O acampamento que deve ser montado entre abril e junho, de acordo com Choptian, vai reunir principalmente famílias da periferia de Londrina. Estamos tentando amenizar 30% dos problemas sociais da Cidade. O acampamento, segundo ele, é só uma forma de pressão que visa também a coordenação das ações das famílias. Os conflitos envolvendo os sem-terra, ocorridos no Estado, segundo Choptian, são resultado da falta de coordenação das ações. Ele garantiu ainda que os coordenadores do movimento estão abertos para dialogar a qualquer momento, desde que haja negociação com proposta concreta.
Contrária à opinião de proprietários rurais, Maria de Oliveira afirma que as ocupações de terra não atrapalham o trabalho do Incra, desde que os sem-terra entendam a necessidade de desocupar as áreas para vistorias. O que, segundo ela, sempre tem ocorrido. Ocupação é um procedimento natural do movimento e, apesar de gerar conflitos, é a saída, já que estamos sempre correndo atrás dos prejuízos, sem cumprir um planejamento. Na opinião de Maria de Oliveira, se não fossem as ocupações, a reforma agrária no País seria bem mais tímida.
Josmar Choptian, do MST
O Paraná tem hoje 85 propriedades ocupadas e outras três concentrações de beira de estrada, somando 12 mil famílias vivendo debaixo de lonas pretas, de acordo com cadastro do Incra. Segundo Maria de Oliveira, 41 mil hectares já foram desapropriados e aguardam imissão de posse (transferência para o Incra) para assentamento de 2 mil famílias. Na segunda-feira, será oficializada a imissão de posse de quatro áreas. Faltam outras cinco.
Apesar da situação, o Paraná, segundo Maria de Oliveira, representa hoje a solução em termos de reforma agrária no Brasil. O Estado está bastante ocupado mas está agindo por ter respondido com assentamentos nas áreas não produtivas, justifica. Outro Estado, segundo ela, que também está avançado no tema é o Maranhão.


