Marcos NegriniCompromisso rompido Carência do SUS se manifestou novamente menos de 24 horas depois do acordo entre autoridades e hospitais

Dois pacientes morreram no Hospital Universitário de Maringá (HU), anteontem à noite e ontem de manhã, menos de 24 horas depois que os hospitais particulares da cidade se comprometeram a atender emergências e urgências pelo SUS. O compromisso foi firmado entre os diretores dos hospitais particulares, representante do Ministério Público, do Ministério da Saúde e autoridades locais.
Deolinda de Paula Teixeira, 76 anos, morreu por volta das 23 horas de anteontem, no HU. Ela estava internada desde o dia 19 a espera de um leito de UTI pelo SUS nos hospitais particulares. Deolinda estava com pneumonia e insuficiência respiratória. Já Mário Piva, 61 anos, morreu às 8 horas de ontem. Ele, internado no mesmo dia que Deolinda, com problemas pulmonares, também aguardava vaga de UTI.
O chefe da diretoria médica do HU, Ricardo Plepsi, disse ontem que Deolinda chegou no hospital com parada cardíaca. ‘‘Ela foi ressuscitada com massagem cardíaca e deveria receber tratamento em UTI’’, confirmou. Segundo Plepsi, a informação repassada pelos hospitais é de que não há vagas de UTI disponíveis. Ontem à tarde, o bebê Igor Boni, de um mês de idade, e José da Cruz, 57 anos, aguardavam vagas de UTI pelo SUS. Igor, segundo o boletim médico, estava com parada cardiorrespiratória. Cruz tem problemas de broncopneumonia e suspeita de meningite. Os dois esperam vagas de UTI há dois dias.
‘‘O Ministério Público vai investigar se houve ou não sequestro de leitos anteontem e ontem, mesmo após o acordo com os hospitais’’, informou Plepsi. Ele sugeriu que a indisponibilidade de leitos pode ter ocorrido em função das cirurgias eletivas que os hospitais deveriam ter na agenda. ‘‘Não sabemos se os hospitais estavam de fato com as UTIs ocupadas com pacientes que precisam de tratamento intensivo após as cirurgias.’’
Marcos Negrini Plepsi: explicação para falta de leitos pode estar em cirurgias eletivas nos hospitais privados


A hipótese levantada por Plepsi contraria informação, divulgada pelo secretário Estadual de Saúde interino, Luciano Ducci, e técnicos do Ministério da Saúde, durante reunião realizada anteontem em Maringá. Ducci e duas secretárias do ministério afirmaram que os 48 leitos de UTIs existentes em Maringá são suficiente para atender a demanda.
As mortes de Deolinda e Mário elevam para cinco o número de pacientes que morreram somente neste mês enquanto aguardavam leitos de UTI pelo SUS. A crise do setor em Maringá foi destaque em jornais de todo o País. Por causa disso, técnicos do MS estiveram na cidade, visitaram os hospitais e verificaram a estrutura do setor. O secretário Ducci anunciou a disposição do governador Jaime Lerner de repassar recursos para a ampliação do HU. Depois ds reuniões, Ducci chegou a afirmar que todos os hospitais se comprometeram a oferecer leitos de UTI, desde que os casos fossem de urgência e emergência.
A Folha não conseguiu localizar ontem nenhum dos principais membros da comissão formada para assegurar o cumprimento do acordo com os hospitais. O presidente do Sindicato dos Hospitais, Antônio Carlos do Nascimento, que testemunhou o compromisso feito às autoridades, não foi localizado ontem à tarde no Hospital Paraná. Na clínica dele, a informação é que ele ‘‘está de férias’’.

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