Falta de treinamento dificulta doação de órgãos
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 1998
Lúcio Horta 
Mário CésarEstigmaCristina: Para muitos profissionais, ainda somos papa-defuntosDepois da implantação da nova lei de transplantes, no primeiro dia de 1998, as famílias de doadores em potencial estão mais sensibilizadas com o problema e também mais informadas sobre a necessidade da doação. A grande dificuldade, agora, acontece dentro dos próprios hospitais, sobretudo nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A avaliação é da coordenadora da Central Estadual de Transplantes, Cristina Von Glehn, que esteve sábado em Londrina, participando do 1º Seminário sobre Doação de Órgãos e Transplantes.
Segundo Cristina Glehn, muitos hospitais ainda não dispõem de equipamentos mínimos para identificar com exatidão e rapidez se o paciente está em morte encefálica. Outro problema é manter o doador potencial em condições físicas estáveis, para que o órgão seja retirado e aproveitado. E as próprias equipes médicas, em muitos casos, não foram capacitadas para tratar deste tipo de paciente ou mesmo conscientizadas em notificar as centrais de recepção para retirada do órgão.
O resultado desta situação é que o órgão acaba se perdendo antes mesmo que a Central de Tranplantes possa ser acionada. Cristina Glehn lembra que, de janeiro para cá, apenas 18 casos de morte encefálica ou cardíaca foram comunicados pelos hospitais paranaenses à Central. As famílias optaram pela doação em 13 destes casos, o que revela grande disposição em permitir a retirada dos órgãos. A família hoje já tem uma postura diferente. Antes, você tinha que explicar até o que era um órgão. Hoje ela até proprõe a doação, afirma.
Já no caso das equipes médicas, sobretudo de UTI, Cristina Glehn afirma que a situação não mudou com a nova lei. O profissional continua do mesmo jeito, principalmente em hospitais que não realizam transplantes. Para muitos deles, nós (da Central de Doação) ainda somos papa-defuntos, define. A coordenadora acredita que somente educação e treinamento específico, como o que ocorreu em Londrina, poderão reverter o quadro.
Cristina Glehn informa também que a Secretaria Estadual de Saúde encomendou uma pesquisa em todo o Paraná para saber porque algumas famílias ainda não aceitam a doação. A partir desse resultado, vamos fazer um trabalho de informação pública, que vai atingir inclusive quem trabalha em hospital. Acho que as coisas, a partir daí, podem melhorar ainda mais, prevê.
Nas cidades atendidas pela Regional Norte da Central de Transplantes, parte da dificuldade começa a ser sanado já a partir desta semana, com treinamento de equipes médicas e de enfermagem que trabalham nas UTIs de Arapongas, Apucarana, Ivaiporã, Cornélio Procópio e Jacarezinho. Elza Lara Bezerra, coordenadora da Central, diz que a expectativa é que ainda na segunda metade de 98 já seja possível fazer a captação de órgãos nestas cidades.
A assistente social da Central de Transplantes da Regional Norte, Gláucia Celestino Reis, lembra que o cuidado com o doador que se encontra em morte encefálica é triplicado. Se ele tiver uma parada cardíaca, por exemplo, não daria mais para aproveitar o coração. Se tiver queda de pressão, perde o rim, esclarece. Para isso, o hospital tem que estar aparelhado.
Elza Bezerra lembra que, neste caso, a entidade pode até orientar os hospitais sobre como pleitear recursos para modernizar as UTIs. Mas não negociar. A Central não tem cunho financeiro, lembra. Entre esses equipamentos, para identificar por exemplo se o paciente está ou não em morte encefálica, seria necessário no mínimo um eletroencefalograma ou aparelho de raio-X com capacidade para fazer arteriografia cerebral.
Com relação às córneas e válvulas do corações, o cuidado é um pouco menor: eles podem ser retirados em até seis horas após a parada cardíaca. Mas o hospital tem de informar a Central o mais rápido possível para dar tempo da equipe se deslocar até o local e retirar os órgãos.


