Mário CésarEstigmaCristina: ‘Para muitos profissionais, ainda somos papa-defuntos’Depois da implantação da nova lei de transplantes, no primeiro dia de 1998, as famílias de doadores em potencial estão mais sensibilizadas com o problema e também mais informadas sobre a necessidade da doação. A grande dificuldade, agora, acontece dentro dos próprios hospitais, sobretudo nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A avaliação é da coordenadora da Central Estadual de Transplantes, Cristina Von Glehn, que esteve sábado em Londrina, participando do 1º Seminário sobre Doação de Órgãos e Transplantes.
Segundo Cristina Glehn, muitos hospitais ainda não dispõem de equipamentos mínimos para identificar com exatidão e rapidez se o paciente está em morte encefálica. Outro problema é manter o doador potencial em condições físicas estáveis, para que o órgão seja retirado e aproveitado. E as próprias equipes médicas, em muitos casos, não foram capacitadas para tratar deste tipo de paciente ou mesmo conscientizadas em notificar as centrais de recepção para retirada do órgão.
O resultado desta situação é que o órgão acaba se perdendo antes mesmo que a Central de Tranplantes possa ser acionada. Cristina Glehn lembra que, de janeiro para cá, apenas 18 casos de morte encefálica ou cardíaca foram comunicados pelos hospitais paranaenses à Central. As famílias optaram pela doação em 13 destes casos, o que revela grande disposição em permitir a retirada dos órgãos. ‘‘A família hoje já tem uma postura diferente. Antes, você tinha que explicar até o que era um órgão. Hoje ela até proprõe a doação’’, afirma.
Já no caso das equipes médicas, sobretudo de UTI, Cristina Glehn afirma que a situação não mudou com a nova lei. ‘‘O profissional continua do mesmo jeito, principalmente em hospitais que não realizam transplantes. Para muitos deles, nós (da Central de Doação) ainda somos papa-defuntos’’, define. A coordenadora acredita que somente educação e treinamento específico, como o que ocorreu em Londrina, poderão reverter o quadro.
Cristina Glehn informa também que a Secretaria Estadual de Saúde encomendou uma pesquisa em todo o Paraná para saber porque algumas famílias ainda não aceitam a doação. ‘‘A partir desse resultado, vamos fazer um trabalho de informação pública, que vai atingir inclusive quem trabalha em hospital. Acho que as coisas, a partir daí, podem melhorar ainda mais’’, prevê.
Nas cidades atendidas pela Regional Norte da Central de Transplantes, parte da dificuldade começa a ser sanado já a partir desta semana, com treinamento de equipes médicas e de enfermagem que trabalham nas UTIs de Arapongas, Apucarana, Ivaiporã, Cornélio Procópio e Jacarezinho. Elza Lara Bezerra, coordenadora da Central, diz que a expectativa é que ainda na segunda metade de 98 já seja possível fazer a captação de órgãos nestas cidades.
A assistente social da Central de Transplantes da Regional Norte, Gláucia Celestino Reis, lembra que o cuidado com o doador que se encontra em morte encefálica é triplicado. ‘‘Se ele tiver uma parada cardíaca, por exemplo, não daria mais para aproveitar o coração. Se tiver queda de pressão, perde o rim’’, esclarece. Para isso, o hospital tem que estar aparelhado.
Elza Bezerra lembra que, neste caso, a entidade pode até orientar os hospitais sobre como pleitear recursos para modernizar as UTIs. Mas não negociar. ‘‘A Central não tem cunho financeiro’’, lembra. Entre esses equipamentos, para identificar por exemplo se o paciente está ou não em morte encefálica, seria necessário no mínimo um eletroencefalograma ou aparelho de raio-X com capacidade para fazer arteriografia cerebral.
Com relação às córneas e válvulas do corações, o cuidado é um pouco menor: eles podem ser retirados em até seis horas após a parada cardíaca. Mas o hospital tem de informar a Central o mais rápido possível para dar tempo da equipe se deslocar até o local e retirar os órgãos.’’

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