O garoto David Marlon Santos de Almeida, de oito anos, ainda executa movimentos próprios da ginástica artística. Os braços aparentemente frágeis surpreendem pela força, e as pernas esbanjam elasticidade. O visível talento para o esporte, porém, não foi suficiente. Um outro ingrediente, que David e sua família não possuem, o tirou da ginástica: dinheiro para bancar o transporte até o ginásio da Associação Londrinense de Ginástica Artística (ALGA), na Área Central. O garoto, morador da Zona Norte, não é o único. Dezenas de outros estão abandonando projetos idealizados para o contraturno escolar por falta de condições de deslocamento.
Só na ALGA, que David frequentou por quase dois anos, outras seis crianças abandonaram o esporte no primeiro semestre de 2005. Por ano, a média é de 20 crianças que se vêem obrigadas a abandonar o sonho de um dia brilhar no pódio. Segundo a coordenadora administrativa da Associação, Rosana Moreira, das 190 crianças e jovens que praticam o esporte, pelo menos 90 precisariam de vale-transporte. ''Alguns pais fazem um sacríficio e conseguem pagar as passagens de ônibus, outros não conseguem e são obrigados a tirar os filhos do projeto.''
De acordo com Rosana, das 190 crianças e jovens que praticam o esporte, pelo menos 90 precisariam de vale-transporte. Ela lembra que com a bilhetagem eletrônica, os estudantes não podem utilizar seus créditos em outro horário que não seja o das aulas do ensino regular. ''Existem alguns que se propõem a ir a pé para a escola para sobrar crédito para vir para a ginástica, mas o sistema não aceita'', afirma a coordenadora.
Ela lembra um outro dilema vivido pelos pais: muitos têm que escolher entre manter uma alimentação adequada para os filhos e pagar transporte. ''Há atletas que treinam até quatro horas diariamente, e precisam alimentar-se bem. Mas nem todos conseguem.'' Rosana explica que em março enviou ofício à Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) pedindo passe livre para pelo menos 30 crianças que treinam todos os dias, mas não obteve resposta.
Nos colégios públicos, projetos extra-curriculares que oferecem de escolinhas de esporte a aulas de línguas, música e informática estão com vagas ociosas, resultado das dificuldades em pagar transporte. ''Muitos alunos não conseguer sequer vir nas aulas de reforço. O Estado banca os professores mas as aulas não são devidamente aproveitadas'', observa o diretor do Colégio Estadual Marcelino Champagnat, Claudecir Almeida da Silva.
O diretor também critica o atual sistema de bilhetagem. ''Com os passes de papel, os estudantes conseguiam utilizar a meia passagem em qualquer horário. Podiam, por exemplo, ir até a Biblioteca Pública ou ao museu fazer uma pesquisa, voltar à escola para realizar um trabalho em grupo. Agora isso não é mais possível.'' Silva estima que de 250 a 300 alunos estão deixando de frequentar projetos realizados no contraturno escolar por este motivo.
Magna Sandra dos Santos Prado, mãe de David, conta que ganha R$ 340,00 por mês como auxiliar de costura para sustentar sozinha sua mãe e os dois filhos menores. ''Além das passagens de ônibus para ele e a vó, que tinha que levá-lo, sempre apareciam competições em outras cidades, que o David nunca podia participar. Ele mesmo percebeu as dificuldades que eu vinha enfrentando e pediu para sair da ginástica.''

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