A falta de tempo ou não saber como ajudar são duas das justificativas mais comuns apresentadas por quem ainda não faz algum tipo de trabalho voluntário. Mas as histórias do médico Mário Sérgio Azenha de Castro, 43 anos, e da dona de casa Matilde Lopes Ferreira, 53, mostram que o argumento é facilmente derrubado.
Ginecologista, Castro trabalha em postos de saúde e dá plantões na Maternidade Municipal. Além disso, também cuida de um consultório particular. Com toda essa correria, o médico ainda encontra tempo para, pelo menos uma vez por semana, dar atendimento médico gratuito às crianças do Lar Anália Franco; proferir palestras para mulheres e gestantes carentes do Conjunto João Turquino e favela do Marabá; e ainda angariar doações para várias obras junto ao empresariado. Além disso, também presta ajuda ao Núcleo Espírita Irmã Scheilla.
Para Castro, nada disso lhe custa muito. Pelo contrário. ''Eu ganho com isso. Quando você ajuda alguém, está se desprendendo de todas as coisas ruins. No final do dia, põe a cabeça no travesseiro e dorme em paz'', afirma. O médico acredita que só com ações de amor ao próximo é possível transformar a sociedade. ''Não adianta ficar criticando o governo. A gente só muda as coisas dando o exemplo'', explica.
Segundo o médico, quando a pessoa toma a decisão de se doar, por mais ocupado que esteja, sempre vai arrumar tempo ou alguma maneira de ajudar. ''Basta olhar para o lado. Aquela pessoa que lhe pára na rua e pede uma informação, por exemplo. Custa escutá-la?'', questiona.
Já a dona de casa Matilde Lopes Ferreira também encontrou um jeito todo particular de ajudar o próximo. Ela e mais oito amigas entre elas, uma cunhada que mora em São Paulo tricotam enxovais de bebês que são distribuídos a gestantes carentes pelo Provopar. Dona Matilde e seu grupo quase nunca se reúnem para tricotar. Cada uma faz o trabalho em sua própria casa, nas horas de folga, e depois encaminham as peças prontas para ela, que leva ao Provopar. ''Antes eu distribuía na porta de casa. Mas depois percebi que várias pessoas estavam se aproveitando, vendendo as peças. Resolvi encaminhar ao Provopar porque eles têm o cadastro de todas as pessoas que realmente precisam'', explica.
A dona de casa nem lembra como começou a fazer enxovais para distribuir, há mais de 15 anos. ''Acho que alguém me pediu um para ajudar uma pessoa. Achei bom e continuei fazendo'', conta. Depois, as irmãs e amigas foram aderindo até que se tornaram um grupo coeso. Umas fazem sapatinhos, outras casaquinhos e outras, mantas. Especialista em mantas tricota dezenas todos os meses , Matilde também é a encarregada de arrecadar a lã utilizada pelo grupo e não se envergonha de sair pedindo o material a conhecidos ou não. ''Dinheiro para comprar a lã nova, a gente não tem, então a solução é pedir. Serve retalho, resto de lã ou até blusas velhas, que não estão em bom estado para serem aproveitadas. A gente desmancha, lava e enrola novos novelos.''
Os restos de lã fazem com que as roupinhas não fiquem uniformes, o que é uma tristeza para as tricoteiras, que adorariam fazer belos conjuntinhos. ''Mas pé de pobre não tem tamanho e filho de pobre não liga para cor. Só para o frio'', aponta. Agora, o grupo está enfrentando a falta de material. ''Até vou aproveitar para pedir. Se alguém tiver resto de lã, esquecida em casa, encaminhem para o Provopar, que eles nos repassam. Essas pessoas precisam muito'', diz.

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