A suspensão da distribuição do medicamento asparaginase no Brasil, fundamental no tratamento de leucemia, preocupa desde a classe médica até pacientes e familiares. Em Londrina, os hospitais do Câncer e Universitário estão com os estoques baixos e com dificuldades para adquirir mais lotes do medicamento.
O problema surgiu em dezembro de 2012 quando o laboratório responsável pela fabricação internacional informou que o medicamento não seria mais produzido em virtude do baixo preço de comercialização. A distribuidora do remédio no Brasil comunicou o Ministério da Saúde (MS) que suspenderia a distribuição a partir do segundo semestre deste ano. Porém, confirmou que o estoque seria suficiente para suprir a demanda até o mês de junho. Na prática não é o que acontece.
O Hospital do Câncer de Londrina (HCL) tem apenas oito caixas do medicamento em estoque. Segundo o diretor administrativo Edmílson Garcia, esta reserva supre a necessidade por, no máximo, 15 dias. Apesar disso nenhum paciente do HCL ainda ficou sem o remédio. "O grande problema é que como a oferta está pequena o preço subiu pelo menos 120% em outras distribuidoras. Estamos tentando uma importação direta de outros países, mas isso deve demorar no mínimo 30 dias em virtude da burocracia", apontou Garcia.
A assessoria do HU informou que com o estoque atual é possível atender apenas os pacientes que já estão internados. Sem a aquisição de mais unidades, novos doentes ficariam sem o remédio. A instituição recebe, em média, sete novos pacientes com leucemia por mês.
A asparaginase é utilizada no tratamento da leucemia linfocítica aguda (LLA), que atinge principalmente crianças. De acordo com a farmacêutica do HCL Josiane Valadão, a falta do medicamento pode trazer muitos prejuízos aos pacientes e impedir a regressão da doença. "Esta droga é usada de forma muito forte no início do tratamento, mas também em todas as demais etapas da quimioterapia", explicou. Não existe no Brasil medicamento similar que possa substituir a asparaginase.

Taxa de cura
Na ONG Viver, que atende 280 crianças e adolescentes com câncer, a situação deixa todos apreensivos. Na casa de apoio, 60% dos pacientes têm leucemia e utilizam o remédio. "É uma situação muito complicada não ter como comprar o medicamento. Muitas crianças podem morrer se ficar sem o remédio. Todas necessitam muito", relatou a presidente da ONG, Jeanine Cotello. "Vamos fazer um movimento através da internet, das redes sociais para pressionar o Ministério da Saúde."
O funcionário público Marinaldo Furlanetto, morador de Bandeirantes (Norte Pioneiro), sente na pele a falta do medicamento. A preocupação dele é com o filho de 3 anos, diagnosticado com leucemia em outubro do ano passado. "Ele está na fase de manutenção e vai utilizar a asparaginase daqui a 20 dias. O uso deste remédio tem uma taxa de cura de 80%. Se meu filho não puder usar, o tratamento corre o risco de voltar à estaca zero. A doença pode retornar forte", colocou Furlanetto. "O governo sabia desde de 2011 que este medicamento iria faltar."
O desabastecimento da asparaginase em vários serviços médicos do País levou a Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) a realizar uma audiência com outras sociedades médicas e órgãos da Ministério da Saúde.
Foi elaborado um documento sugerindo algumas medidas para amenizar o problema. Um dos pedidos é a importação de drogas já utilizadas em países da Europa e nos Estados Unidos. Foi solicitado também que o acesso dos medicamentos importados seja universal e que o preço maior destes remédios seja absorvido pelo Ministério da Saúde.
O ministério informou ainda que está em contato com o laboratório Bagô, único fornecedor do asparaginase no Brasil, que garantiu ter estoque suficiente do medicamento para abastecer a demanda do País neste primeiro semestre de 2013.
Para o período posterior, o ministério já está viabilizando a compra internacional do produto com outro fornecedor. Além disso, articula parceria entre laboratórios públicos e privados para a produção nacional do medicamento.

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