Falta de remédio para Aids compromete tratamento
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quinta-feira, 10 de maio de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Pela segunda vez neste ano doentes de Aids enfrentaram falta de medicamentos na rede pública de Londrina. O Biovir, um dos principais remédios do coquetel anti-retroviral, consumido por cerca de 500 pacientes na cidade, ficou quase quatro dias ausente e só teve sua distribuição normalizada ontem. Pacientes se dizem preocupados com o prejuízo à saúde.
O servidor federal Ricardo (nome fictício), 24 anos, conta que procurou o Centro Integrado de Doenças Infecciosas (Cidi) por três dias seguidos e ouviu a mesma resposta. ''Disseram que não tinham o medicamento, mas não deram nenhuma justificativa'', afirma.
Para não interromper a medicação, que segue à risca, Ricardo diz ter usado ''contatos'' para comprar o remédio, que não é vendido nas farmácias. ''Paguei R$ 1 mil (caixa de comprimidos para um mês). Se você fica um tempo sem tomar o medicamento, o tratamento pode regredir. Imagine as pessoas que não têm condição financeira para comprar por fora'', observa.
Há cerca de um mês, outro portador de HIV relatou à FOLHA que chegou a ficar quatro dias sem tomar um dos medicamentos porque não o encontrou na rede. O ex-coordenador da ONG Adé-Fidan e também doente de Aids, Edson Bezerra, assinala que o problema acontece com frequência.
''O Ministério da Saúde tem um defeito grave que é fazer licitação depois que acaba o estoque. No posto, te falam 'não tem, fica sem tomar'. Mas há vidas que dependem disso, você não pode ficar à mercê da burocracia'', critica.
O infectologista Jan Stegmann explica que, para o tratamento de Aids ser efetivo, é necessário manter uma supressão viral constante, ou seja, não permitir que o vírus se reproduza. ''Uma parada do tratamento esporádica, devido à realização de uma cirurgia, por exemplo, dificilmente provoca algum problema. Isso não pode é se tornar frequente'', esclarece.
Conforme o médico, doses insuficientes dos remédios podem levar o vírus a criar uma mutação de resistência. ''Corre-se o risco de piorar a imunidade e ter de se mudar o esquema de tratamento, ou precisar usar mais medicamentos. Por isso é necessário haver uma adesão perfeita à medicação.''
O enfermeiro e técnico da Gerência Municipal de DST-Aids e Tuberculose, Edvilson Cristiano Lentine, afirma que a falta do medicamento nesta semana decorreu de problemas na produção do laboratório que o fornece ao ministério. Ele diz estranhar que Ricardo não tenha conseguido nenhum remédio, uma vez que foi recomendado às unidades que fornecessem os dois componentes genéricos do Biovir para substituí-lo.
''Às vezes o paciente é orientado a aguardar até a reposição do estoque. Se você fica dois, três dias sem tomar o medicamento, dependendo do caso não vai fazer tanto estrago. Claro que o correto é isso não acontecer, mas é um problema nacional'', alega, destacando que o crescimento do número de infectados pela Aids tem reflexo nos fornecedores.


