A família de Francisco ficou grande demais, a violência espantou Cleusa do bairro, o pai de Fernanda ficou sem trabalho na roça. De problema em problema, as invasões foram inchando, novas foram surgindo e a fila de espera da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) foi crescendo. Hoje, já são 18 mil inscritos e milhares de pessoas vivendo sob tetos incrivelmente precários enquanto sonham com uma casa de verdade.
''A demanda vai sendo abastecida com a construção e entrega de casas, mas ao mesmo tempo a cidade vai crescendo, mais gente vai casando. Isso nunca vai cessar. São Paulo, que tem mais de 400 anos, está longe de resolver o problema. Imagine Londrina'', sentencia o presidente da Cohab-Ld, Carlos Eduardo de Afonseca e Silva.
A contínua cobrança por moradias entre as famílias de baixíssima renda, paralela à frequente formação de novas invasões, revela traços preocupantes da Londrina que se aproxima dos 73 anos. Incapaz de inserir no mercado formal de trabalho grande parte dos seus habitantes, o município assiste à reprodução de padrões de miséria por gerações e gerações, cada vez mais dependentes do Estado. E embora suas chagas estejam expostas - desemprego e violência são duas delas - a metrópole do norte paranaense continua recebendo gente em busca de melhores oportunidades.
''Meu pai trabalhava na roça. Eu gostava de lá, porque tinha um monte de fruta: mexerica, goiaba, pitanga. Aqui a gente não come nenhuma fruta, só arroz, feijão e às vezes carne. Mas essa casa é melhor. A outra era de lona'', conta Fernanda, uma menina miúdinha que só transparece seus 10 anos de idade quando começa a falar, com ares de adulta.
Saída de Mauá da Serra (54 km ao sul de Apucarana), ela mora num dos cerca de 30 barracos erguidos num terreno ao lado do Jardim Santa Fé (Zona Leste de Londrina), há cerca de oito meses. A reportagem a encontrou sozinha, cuidando dos irmãos. A mãe saíra para vender colorau e o pai, para catar papel. O lixo, aliás, é a fonte de renda da maioria dos homens da invasão - ex-lavradores ou ex-operários que não conseguiram mais emprego por causa da idade, como o pioneiro da comunidade batizada de ''Santo Antônio'', Francisco Natalício da Silva, 50 anos.
''Trabalhei numa fábrica de linhas, com carteira assinada, e fui pedreiro no Ilha Bela (conjunto residencial da Cohab). Você sabe, o pedreiro levanta casas, mas nunca consegue fazer a dele'', resigna-se o atual carroceiro, que a exemplo da maioria dos moradores da invasão sequer está cadastrado na Cohab.
''Já morei em fazenda e mexi com agricultura, mas com as crianças a gente tem que estar perto da cidade'', diz Isaías Domingues da Silva, 34 anos, catador de papel e pai de cinco filhos. Se a falta de perspectiva no campo trouxe a família para Londrina, foi a falta de segurança da cidade que a atraiu para a invasão. ''Já moramos em casa melhor no João Turquino (Zona Oeste de Londrina), mas lá sempre tinha tiro, uma hora acertava os meninos. Viemos para o Santa Fé, mas lá a casa não era da gente. Agora, aqui'', recapitula Cleusa, 28 anos, esposa de Domingues.
Outra história que se repete é a da família que cresceu mais que a casa. Foi o que levou Francisco a deixar um imóvel próprio para a filha, no Santa Fé, e iniciar a invasão que leva o nome de seu neto. ''Quem casa quer casa, né? E minha menina e meu genro já têm três filhos. Preferi vir para cá com a esposa. É bom ter seu lugarzinho, ter a liberdade da gente'', justifica.
Também foi a necessidade de ter seu próprio canto que levou a doméstica Aparecida Gomes Venera, 33 anos, a se instalar no fundo de vale do Conjunto José Belinati (Zona Norte de Londrina). ''Morava umas 15 pessoas na antiga casa, no Conjunto Novo Amparo (Zona Norte). Meu marido virou pra mim e perguntou: 'cê topa invadir?' Topei. Quando tava aqui dentro, não acreditei'', lembra. ''Que tristeza! Eu nunca tinha vivido em favela. Meu sonho é ter uma cozinha, um quarto para cada filho.''
Nos últimos seis anos, segundo o presidente da Cohab, a companhia investiu cerca de R$ 30 milhões na regularização de ocupações e construção de moradias para a faixa de renda abaixo de três salários mínimos. Ou seja, a fila anda. Mas quando se ouve depoimentos como o desta reportagem e se constata que, sem perspectiva de ascenção econômica, as novas gerações vão sempre engrossar o déficit habitacional, fica a pergunta: a fila anda, mas para onde?

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