Cerca de 320 renais crônicos que fazem tratamento em Londrina estão sem medicamentos de uso contínuo. A reclamação é da Associação de Renais Crônicos. Segundo o presidente da entidade, Jurandir Garcia, os renais crônicos necessitam regularmente do hormônio eritropoetina. Nas farmácias, cada caixa, com 10 ampolas, custa entre 300 e 400 dólares.
‘‘É óbvio que praticamente a totalidade dos pacientes não tem condições de comprar o medicamento. A maioria é de pessoas carentes, que não necessitam de duas a três doses por semana e não têm condições de comprá-la nas farmácias. Portanto, é inaceitável que o governo não garanta o abastecimento regular’’, enfatiza Garcia.
O presidente da associação diz que a distribuição do medicamento sempre foi irregular. Mas, nos últimos 60 dias, o repasse tem sido também insuficiente. ‘‘A saúde pública do Paraná está em estado de coma. Se continuar sendo gerenciada desta maneira, vai morrer’’, opina Garcia, dizendo que o secretário de Saúde, Armando Raggio, está mal-assessorado. ‘‘A deficiência da assessoria é a única explicação, pois hoje está tudo informatizado e basta apertar um botão de computador para ter a radiografia da situação em todo o Estado’’.
Além da deficiência na assessoria da Secretaria de Saúde, Jurandir Garcia aponta a falta de investimentos. ‘‘Infelizmente, o governo não trata da saúde como prioridade. Quando falam em cortes, o setor mais afetado é sempre o da saúde’’, enfatiza o presidente da associação. Ele destaca que o governo ainda não explicou para onde foram os recursos arrecadados com a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras, a CPMF, criada exatamente para financiar a saúde.
Garcia diz ainda que a Associação de Renais Crônicos não tem condições de fazer mais do que denunciar o descaso do governo e reivindicar o atendimento dos direitos dos doentes, que também são cidadãos. ‘‘A entidade é mantida por doações, pois não há como cobrar mensalidade dos renais crônicos. Felizmente, temos recebido apoio dos médicos, através da Associação Médica, da Sociedade Brasileira de Nefrologia e da Associação Brasileira de Diálise e Transplante Renal.
O nefrologista João Yokoiama, da Nefroclínica, explica que o hormônio eritropoetina é produzido pelos rins. Como os renais crônicos perderam a capacidade de produzi-lo, necessitam do medicamento. ‘‘Sem o hormônio, a pessoa fica anêmica e necessita de transfusão sanguínea’’, detalha o médico, acrescentando que pode causar também crises de hipertensão (pressão alta) e acidentes vasculares (infartos e derrames cerebrais).
Yokoiama explica ainda que o tratamento com o hormônio apresenta fases de indução e manutenção. Na primeira, o paciente necessita de doses pelo menos 50% maior do que na segunda fase. ‘‘O procedimento funciona como um avião. Necessita de mais força e corre maiores riscos na decolagem. Depois que atinge velocidade e altura de cruzeiro, pode ser conduzido até pelo piloto automático’’, compara o médico.
O especialista destaca que a falta do medicamento provoca prejuízos também para o Estado. De acordo com o médico, além do aumento no consumo do eritropoetina na retomada do tratamento, a necessidade de transfusão de sangue e a ocorrência de pressão alta, infartos ou derrames cerebrais exigem ainda mais gastos. ‘‘Além do aumento dos custos financeiros, há o risco de contaminação hospitalar, transmissão de doenças, como hepatite, doença de chagas, sífilis e, principalmente, do vírus da Aids’’, destaca o médico. ‘‘Apesar de todos os exames e cuidados, a transfusão de sangue sempre representa riscos de contaminação e só deve ser feito em situações de extrema necessidade. Certamente, pode ser evitado no tratamento dos renais crônicos’’, acrescenta.

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