Falta de leitos mata criança e
ameaça internados no Zona Sul
Pacientes com chances de recuperação podem morrer se não conseguirem atendimento especializado urgente
Lúcio Horta
Pacientes com chances de recuperação podem morrer no Hospital da Zona Sul (HZS), em Londrina, se não conseguirem vagas em leitos de outros hospitais da Cidade. O alerta é do próprio diretor clínico do HZS, Sidney Girotto. Há aproximadamente uma semana, lembra o diretor, o caos provocou a primeira vítima: uma criança com quadro grave de broncopneumonia, inflamação no rim e septcemia (infecção generalizada) não conseguiu ser transferida para um hospital que dispunha de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e acabou morrendo.
Ontem de manhã, uma outra criança, de apenas um mês de idade e em estado grave, também precisaria ser transferida para uma UTI com urgência. Mas não havia vagas em outros hospitais. A criança, há um dia internada, estava com bronqueolite, broncopneumonia, esofagite e respirava com muita dificuldade. Girotto diz que chegou a ligar pessoalmente para o Hospital Infantil, para que recebesse a criança, mas a resposta foi negativa.
Pelo menos outros dois casos também preocupavam a direção do hospital: um rapaz, com fratura exposta na tíbia, e outro, com traumatismo craniano, permaneciam em leitos no HZS e aguardavam transferência para um hospital maior para que pudessem receber atendimento adequado. Não havia, porém, previsão de transferência. ‘‘Só Deus sabe o que pode acontecer’’, desabafa o diretor. ‘‘E isso é rotina. Infelizmente perdemos uma criança, estamos perdendo outra e a gente se torna impotente numa situação dessas.’’
O HZS é considerado um hospital secundário e dá assistência intermediária entre os postos de saúde (atendimento primário) e hospitais maiores, como o Hospital Universitário (HU), Evangélico ou Santa Casa. Estes são chamados hospitais terciários e têm capacidade para atender casos mais complexos, inclusive com leitos de UTI, além de realizar cirurgias com especialistas em diversas áreas.
O grande problema, explica Sidney Girotto, é que os hospitais terciários de Londrina e também de toda a região estão superlotados e por isso negam atendimento a novos pacientes. Além disso, o Hospital da Zona Sul tem uma estrutra física precária (somente 30 leitos), dispõe nos plantões de apenas dois médicos (um clínico geral e um pediatra) e a demanda tem aumentado a cada dia. A média de atendimento no mês de maio, por exemplo, foi de 170 diários, com picos de 200. ‘‘E, se não fosse a triagem, a gente atenderia bem mais’’, diz Girotto.
A situação piorou muito com as quedas de temperatura registradas no último mês. O frio faz aumentar as doenças respiratórias, sobretudo em crianças e idosos, e os pacientes têm vindo não só da região sul como também dos distritos próximos de Londrina. O diretor clínico aponta ainda que, como o HZS é o único que mantém pediatra 24 horas por dia, às vezes é também o único hospital da Cidade com pronto-socorro infantil. ‘‘E aí cai tudo no hospital e vira esse caos.’’
Para amenizar o problema, Girotto afirma que o Conselho Intermunicipal de Saúde do Médio Paranapanema (Cismepar), que administra o HZS, estuda a contratação de pelo menos mais um médico para ajudar no atendimento das 17 às 23 horas, que é o mais procurado. Para isso, o hospital está desativando uma sala de gesso para transformá-la em consultório. O diretor observa, no entanto, que isso não vai resolver o problema e que também não existe acomodação física para contratar outros profissionais da área médica.
Girotto lembra também que na última quinta-feira ocorreu uma reunião convocada pelo Ministério Público com representantes de hospitais da Cidade para discutir a situação dos pronto-socorros. Mais uma vez, todas as instituições reclamaram que estão com a capacidade de atendimento esgotada e não houve uma conclusão sobre como melhorar a situação dos PS. Ontem haveria nova reunião, com Cismepar, 17ª Regional da Saúde, Hospital da Zona Norte (HZN) e HZS também para discutir a situação. ‘‘Alguma coisa tem que ser feita urgente. Eu só não posso aceitar que o HZS seja apontado como único culpado do caos que existe hoje na Cidade.’’Milton DóriaÀ ESPERA DE UTI
A situação do bebê Igor dos Santos Jardim, de 30 dias e internado desde domingo no HZS, preocupa muito a família. Ele está com bronqueolite, broncopneumonia, esofagite e ontem respirava com muita dificuldade. A mãe sabe que a criança estaria mais segura numa UTI. ‘‘O que a gente já passou não é fácil’’, diz ela. Igor tem problemas de saúde desde que nasceu e chegou a ficar internado no Hospital Infantil durante 17 dias.Milton DóriaESTADO CRÍTICO
Outro paciente internado em estado crítico no HZS é Edson Honório, que diz ter 47 anos. Honório conta que foi assaltado, apanhou e acabou batendo com a cabeça no chão. Confuso, diz que está bem e que gostaria de receber alta. No entanto, o diretor clínico do hospital, Sidney Girotto, aponta que houve fratura de crânio e que o paciente já deveria estar recebendo tratamento em outro hospital para evitar complicações.Milton DóriaFRATURA EXPOSTA
Celso Tibúrcio dos Santos, 36 anos e morador do jardim Califórnia (zona leste), também precisava ontem ser transferido para receber atendimento em outro hospital. Ele diz que caiu de bicicleta e ‘‘trincou’’ a perna. Na verdade, houve fratura exposta da tíbia e ele precisaria ser operado. ‘‘Cheguei aqui e disseram que preciso trocar de hospital. Espero que saia hoje (ontem) mesmo, tenho muito medo de perder a perna.’’CORREDOR LOTADO
Milton DóriaEnquanto os pacientes mais graves não são transferidos, o HZS continuava ontem de manhã com o setor de atendimento lotado. Muitos pacientes recebiam soro estavam nos corredores. Eliane da Silva, 18 anos, esperava atendimento para a filha, Luana, de apenas três meses. A criança tinha caído em casa e batido com a cabeça no chão. ‘‘A enfermeira já olhou e parece que ela está bem. Mas espero que seja atendida pelo médico logo.’’

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