Falta de intérpretes prejudica aprendizagem
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segunda-feira, 01 de junho de 2009
Carolina Gabardo Belo<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Há quatro anos, o estudante Ivan Gomes Moraes, 19, abandonou a colégio em que estudava, em Foz do Iguaçu (Oeste). Surdo desde que nasceu, o jovem foi prejudicado pela ausência de um interprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras) na escola. ''Não conseguia entender as aulas'', conta. Desde então, Moraes passa os dias em casa, sem nenhuma atividade educativa. Ele se preocupa agora com o possível esquecimento da língua portuguesa, que não pratica mais.
Seu amigo, Jordão Siqueira Gomes, 16, continua na escola em Foz. Mesmo com 70% de audição em um ouvido e 0% em outro, ele também sente dificuldades em acompanhar os professores que não dominam Libras. ''Fica difícil, os professores passam algumas matérias difíceis e eu me perco.''
Na escola onde estudam, a única do município que recebe surdos, são aproximadamente 100 alunos com a deficiência, cerca de 15 em cada turma. Em nenhuma das séries um profissional faz a tradução para Libras. Entre muitos colegas de turma, os estudantes com deficiência auditiva passam ainda pelo estigma de serem burros. ''Mas sem intérprete não dá'', reclama Gomes. Preconceito esse que continua fora dos muros da escola. ''Dizem que surdo é vagabundo, que não quer trabalhar e que não sabe falar.''
Assim como Ivan e Jordão, cinco mil alunos paranaenses passam por dificuldades nas aulas pela ausência de intérpretes e professores que dominem Libras, de acordo com a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis). O problema estende-se desde a educação infantil ao ensino superior. Apenas 18 escolas são específicas para atender a esse público, enquanto o restante dos alunos está em processo de inclusão nas escolas regulares. ''Eles passam por uma limitação cultural, que prejudica seu desenvolvimento'', avalia o psicólogo Aldemar da Costa, que atende a estudantes surdos e suas famílias.
Uma manifestação realizada ontem, pela regional Paraná da Feneis, pediu o cumprimento da Lei 10.436 e do Decreto 5626, que reconhecem a Libras como língua das comunidades surdas brasileiras. Eles determinam que órgãos públicos garantam atendimento adequado às pessoas com deficiência auditiva e que a Libras seja inserida como disciplina curricular obrigatória em cursos de formação de professores. ''Faltam intérpretes nas instituições. Hoje, os concursos públicos são organizados apenas para os ouvintes. Entre 2005 e 2008, nenhum surdo passou em um concurso'', critica a presidente da Feneis, Elizabete Favaro.
Os manifestantes pedem o ensino de Libras nas escolas, determinação do português como a segunda língua nas avaliações às pessoas com deficiência auditiva, educação bilíngue nas escolas frequentadas por surdos, realização de concursos públicos para a contratação de intérpretes e professores surdos e disponibilização de intérpretes nos serviços públicos.
A Secretaria Estadual da Educação informou que há 354 intérpretes de Libras atuando na rede estadual de ensino. Segundo nota, o número só não é maior porque a formação requer tempo e a oferta de profissionais é pequena. Ainda de acordo com a secretaria, desde 1998, o Paraná tem uma lei, que oficializa a Libras, anterior à norma federal.


