Falta de estrutura leva Caic a reduzir serviços
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de abril de 1997
Edmara Michetti 
Milton DóriaPrecariedadeDéficit de 16 funcionários tem levado à dispensa da grande maioria das crianças da pré-escola antes do horário previstoInaugurado sem estrutura suficiente, o Centro de Atendimento Integrado à Criança (Caic) Dolly Jess Torrezin, no jardim Cristal (zona sul de Londrina), tem reduzido o serviço para se adequar às precárias condições. Faltam funcionários, professores, equipe médica e recursos para fornecer a alimentação completa para todos os 1.200 alunos.
Diante da situação, a aposentada Jesuína Dias dos Santos já se arrepende de ter transferido o filho de 11 anos da escola do conjunto São Lourenço para o Caic. Moradora no jardim União da Vitória, ao lado do jardim Cristal, ela reclama que a falta de professores faz com parte das crianças fique até duas vezes por semana sem aulas. Além disso, ela afirma que os alunos estão sendo liberados antes do horário previsto. Jesuína reclama ainda da alimentação. Esses dias meu filho chegou ruim em casa porque a comida estava azeda.
Com cinco filhos na escola - um na 4ª série, outro na 3ª, dois na 2ª e um no maternal - Evanilde da Silva Prado também não está satisfeita. Segundo ela, que também mora no União da Vitória, o problema começou a se agravar nos últimos 15 dias. As crianças ficam sem comer nada depois do almoço e chegam em casa alvoroçadas.
Milton DóriaJesuína: arrependida por ter trocado os filhos de escola
Para o caso de falta de funcionários, ela, que faz parte da comissão de cestas básicas do bairro, sugere que o Caic aproveite a mão-de-obra das próprias mães desempregadas do União da Vitória. Eles jogam um monte de verduras e legumes que estragam e poderiam dar para essas mães que elas aproveitariam, sugere. Tenho certeza que elas adorariam porque aqui é todo mundo pobre.
As mães questionam ainda a falta da equipe médica, prevista pelo projeto. Segundo Jesuína, o filho de uma vizinha teve diarréia e foi mandado de volta para casa sem nenhum atendimento especial. Cadê os médicos que ia ter? Eles não iam dar atendimento para as crianças?
Mesmo admitindo parte dos problemas, o diretor geral do Caic, Amauri Pereira Cardoso, acredita que as reclamações não têm cabimento. As oito horas de atividades que foram propostas estão sendo dadas, justifica. O problema são as condições.
Segundo Cardoso, o Caic tem um déficit de 16 funcionários para atendimento no pátio, auxiliar de cozinha e serviços gerais e três professores para as oficinas da pré-escola. Por isso, nas últimas duas semanas, 50 das 75 crianças da pré-escola estão sendo dispensadas antes do horário. As outras 25 permanecem na escola no período normal, segundo ele, porque não têm com quem ficar em casa.
A deficiência no quadro de pessoal, segundo Cardoso, vem desde o início. O Caic foi inaugurado em meados de fevereiro com atendimento de escolaridade - meio-período. No início de março começou o funcionamento integral. Até agora fomos remanejando, mas chegamos ao limite. O limite já inclui quatro voluntárias no quadro de funcionários de cozinha e creche e a ajuda dos alunos mais velhos nos cuidados com os menores e até mesmo como auxiliares de cozinha.
Milton DóriaEvanilde: Problema vem se agravando nos últimos 15 dias
A equipe de saúde - com médico, enfermeira, dentista, psicológo e fonoaudiólogo - ainda não existe. Temos adolescentes vindos do Setrem (Serviço de Triagem, Recepção e Encaminhamento de Menores) que precisam de acompanhamento psicológico e não passamos de professores.
Sem alimentação suficiente, os alunos de 5ª à 8ª série deixaram de receber o almoço, sendo liberadas para comer em casa. Segundo Cardoso, entre 50 e 60 estudantes de 5ª série mais carentes continuam recebendo a comida na escola. Eles voltam à tarde e recebem o lanche. Com isso, segundo o diretor geral, o número de refeições no almoço caiu de 900 para 500.
Apesar das dificuldades, Cardoso garante a qualidade da comida que inclui arroz, feijão, carne, legumes, verduras e frutas. Ele explica que para manter todas as refeições seriam necessários cerca de 1,5 mil quilos de arroz ao mês. O governo do Estado, segundo ele, entrega, no máximo, 300 quilos.
As verbas também não chegaram até o Caic da Zona Sul. Cardoso acredita que o Estado, responsável pelo atendimento de 5ª à 8ª série, comece a repassar recursos para manutenção até julho. Responsável pelos estudantes até a 4ª série e a alfabetização de adultos, que funciona durante à noite, o Município repassou R$ 3 mil que serviram para pagar dívidas. O pagamento dos professores e funcionários ainda não foi afetado. Cardoso calcula que sejam necessários R$ 3 mil mensais para manter a escola, fora a folha de pagamento.
Cardoso tem buscado apoio na iniciativa privada. Os legumes, verduras e frutas já são conseguidos através do Mercadão. Ele acredita que as primeiras doações de empresários já contatados cheguem em maio.


