As obras de ampliação da rede de esgoto de Campo Mourão estão sendo feitas num ritmo bem mais lento que o previsto. O problema não é a falta de recursos e surpreende até a Construtora Ábaco, de Cascavel, responsável pela obra: falta mão-de-obra na cidade para cavar os 47 mil metros de valetas para a implantação da nova rede. A empresa precisa de 180 homens, mas até agora só conseguiu 70, apesar da procura ter iniciado na segunda quinzena de janeiro.
‘‘Em 20 anos, nunca vi uma coisa dessas’’, diz o encarregado geral da obra, Trajano Réus Soares, 39 anos. A idéia de contratar o serviço manual em vez das máquinas que fazem o mesmo serviço partiu da prefeitura, que pretendia gerar emprego na cidade. Em janeiro, quando a Agência do Sistema Público de Emprego (Sempre) anunciou as vagas, mais de 400 homens chegaram a se inscrever, mas a maioria desistiu porque considerou o serviço muito pesado.
A baixa adesão ao trabalho também impressinou o chefe do Sempre, Aparecido Antônio Barbosa. ‘‘Parece que os primeiros empregados pegaram uma região difícil de ser escavada e amedrontaram o resto’’, disse. Sem conseguir preencher as vagas, Barbosa começou ontem a entrar em contato com prefeituras da região atrás de desempregados interessados. A empreiteira se dispõe a oferecer ônibus para transportar os operários de fora.
Simone GirotoO pedreiro Luiz Pedro Paixão, 46 anos‘‘Quem não é acostumado não aguenta mesmo’’, diz o operário João Tomás, 48 anos, que faz cerca de nove metros diários de valeta, o que lhe rende R$ 18,00 por dia. As valetas têm 50 centímetros de largura e, em média, 1,40 metro de profundidade. A empreiteira paga R$ 2,00 por metro. ‘‘Deveria ser R$ 3,00 ou R$ 4,00’’, reclama o pedreiro Luiz Pedro Paixão, 46 anos. Ele e o filho, Valdinei Aparecido, 21 anos, estão trabalhando como ‘‘valeteiros’’ há duas semanas.
2º grau Paixão disse que aceitou o trabalho porque estava sem serviço. Ele cava cerca de 12 metros por dia (R$ 24,00), mas reclama que poderia estar ganhando cerca de R$ 35,00 por dia se estivesse atuando como pedreiro. Paixão aguarda ansioso o início dos consertos das calçadas que estão sendo quebradas. ‘‘Daí, sim, vou atuar na minha profissão’’. Para escavar os buracos, os homens precisam quebrar calçadas e até mesmo trechos de asfalto.
Pesado Os irmãos Márcio, 25 anos, e Cláudio Quennehen, 28, que têm 2º grau completo, também contam que aceitaram o serviço porque estavam desempregados na construção civil. Eles, no entanto, não reclamam. ‘‘Estamos acostumados a trabalhar no pesado’’, diz Márcio. ‘‘Somos técnicos em contabilidade, mas não achamos emprego em Campo Mourão’’, completa Cláudio. Os irmãos não pensam em sair da ‘‘escavação’’. ‘‘Dá para tirar uns R$ 15,00 por dia’’, diz Márcio.
Acir Silva dos Santos, 36 anos, pensa diferente. Ele trabalhava na construção civil, mas estava desempregado há seis meses. ‘‘Estava vivendo de bicos’’, conta. Agora, empregado, ele admite que pensa em desistir devido à dureza do trabalho. ‘‘Mas não existe outro emprego’’. Já Luiz Roberto Martins, 26 anos, trabalhava em posto de combustíveis até ficar desempregado, há quatro meses. ‘‘Estou aqui por necessidade e, se aparecer outro emprego, saio na hora’’.

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