Telma Elorza
De Londrina
‘‘Eu já peguei uma 12, várias vezes, para explodir a cabeça e acabar com tudo. Estou cheio de problemas e eles (o comando) não se importam nem um pouco com o que está ocorrendo com a gente. Que tipo de serviço eu posso prestar à sociedade neste estado?’ O desabafo foi feito ontem por um policial militar da ativa, que, com 20 anos na PM, já passou por vários setores da corporação – Bombeiros, Florestal e Rodoviária. Hoje, o policial enfrenta uma série de problemas particulares e de saúde causados pela dedicação exclusiva à profissão.
O PM José (nome fictício) sabe do risco que corre ao dar entrevista. Nem isto, porém, o impediu de denunciar. ‘‘É até contra meus princípios fazer este tipo de coisa mas tem uma hora que a gente tem que falar para que as pessoas saibam do que está ocorrendo. A Folha está mostrando muito bem a realidade dentro dos quartéis. Só assim pode haver alguma mudança’’, explica.
José não esconde a decepção com a corporação. ‘‘Eu já fui um profissional dedicado. Mas chega um ponto que não dá para ligar para mais nada. Que adianta eu carregar o piano se tem 200 que não fazem nada?’, questiona. Segundo ele, o profissional enfrenta três estágios em sua carreira militar: o idealismo, o conhecimento e a decepção. ‘‘Nos primeiros cinco anos, há o entusiasmo, a vontade de fazer. Depois você começa a ver como as coisas funcionam. No fim, nem liga mais, quer garantir só o seu salário no fim do mês. Tudo porque eles tratam a gente com descaso. Para eles, a praça de pré (que reúne soldados, cabos e sargentos) não é nada’’, afirma.
Segundo ele, a própria formação da academia incute estes parâmetros para os futuros oficiais. ‘‘O oficial que se preocupa e atende bem o praça é considerado dissidente e não tem futuro promissor na carreira’’, aponta.
O maior problema enfrentado pelos PMs, segundo José, é o abandono com o que o comando trata seus subordinados. ‘‘Para eles, nós não somos nada. Somos bucha de canhão, o dispensável’’, diz. Segundo ele, em qualquer empresa é preciso valorizar o profissional. ‘‘E não é preciso muito, basta investir um pouquinho, dar alguns benefícios que nós não temos’’, explica.
Um dos pontos que José levanta é a falta de assistência médica e odontológica para o policial e sua família. ‘‘Muitos passam dificuldades, sem dinheiro nem para comprar comida quanto mais para ir a um médico ou comprar remédio’’, afirma. Segundo ele, apesar de todo mês vir descontado no contracheque um valor para um fundo de saúde e também um para o Instituto de Previdência do Estado, o ParanaPrevidência (extinto IPE), os soldados estão desassistidos.
‘‘O IPE não funciona, está desmantelado. As clínicas e os hospitais não aceitam policiais por causa disso. Este dinheiro do fundo de saúde ninguém sabe para onde vai. Se o policial for ferido em ação ou sofrer um acidente, recebe um primeiro socorro e depois tem que arcar com as despesas do próprio bolso’’, garante. De acordo com José, isto aconteceu recentemente com um policial que foi atropelado. ‘‘Os colegas tiveram que fazer uma vaquinha para pagar a consulta médica. Não recebeu nem uma visita do seu oficial’’, acusa.
Contrariando as afirmações do coronel Sanderson Diotaleve, chefe do Estado Maior da Polícia Militar, publicadas na edição de anteontem, o policial também questiona o Serviço de Assistência Social (SAS) da Polícia Militar. ‘‘Eu procurei ajuda no meu batalhão, pois eu sentia que precisava de apoio para enfrentar meus problemas. Fui jogado de um lado para outro, oficial exigindo que fizesse ofício disto e daquilo. Até que resolvi ligar direto para Curitiba para falar com uma psicóloga. A resposta que tive foi que só poderia falar pessoalmente. Tudo bem, mas como vou para lá, às minhas próprias custas? Além disto, nem dispensa do serviço consegui’’, questiona.
Segundo ele, todos os policiais militares – principalmente os da praça de pré – vêm cobrando seguidamente um plano de saúde. ‘‘São 20 mil homens no Paraná. Será que nenhuma operadora se interessa por isto? A gente se propõe a pagar’’, diz. De acordo com José, Curitiba dispõe de um Hospital Militar. ‘‘Mas lá só se atende coronel, o cara que recebe um bom salário e pode pagar por saúde. E se você consegue chegar até lá, têm que ceder a vez para um coronel que resolveu que precisa ser atendido logo’’, acusa.
O PM questiona a afirmação do comando de que os policiais cumprem escala de 44 horas semanais e 176 horas/mês. Segundo ele, a escala atinge 240 horas/mês. José aponta ainda que as reuniões e os exercícios são feitos nos horários de folga.